RESENHA DEUS E A FILOSOFIA - ÉTIENNE GILSON
Victor Benincasa Borejo
RESENHA DEUS E A FILOSOFIA - ÉTIENNE GILSON
Étienne Gilson é um filósofo de linha tomista e que também possui uma filosofia própria. Ele é autor de diversos livros, dentre eles “Deus e a Filosofia”. A obra em questão trata da visão e o pensamento sobre Deus em quatro etapas do pensamento filosófico: Filosofia Grega, Filosofia Cristã, Filosofia Moderna e Filosofia Contemporânea; essas etapas nomeiam os quatro capítulos do livro.
No primeiro capítulo, intitulado “Deus e a
Filosofia Grega”, o autor diz que todos os estudos feitos na história da
cultura ocidental, sejam eles de lógica, ciência, arte, política, começam com
os Gregos, bem como na teologia natural – quanto a esse ponto ressalta como não
é evidente as origens do conceito filosófico de Deus nos Gregos. Exemplifica
tal dificuldade falando da leitura de textos de Aristóteles, de onde provém
grande parte da informação da filosofia Grega antiga.
Dessa forma, a partir de textos de
Aristóteles, Gilson mostra duas afirmações de Tales de Mileto: a primeira que
todas as coisas vem e regressarão à água e que todas as coisas estão cheias de
deuses. A pergunta que se segue é: como essas afirmações se conciliam? A solução
de um estudioso, que identifica as noções de água e a de divindade, faz com que
Tales diga que a água é o deus supremo. Isso acaba gerando um problema: Tales nunca
disse isso de fato, pois o texto dado por Aristóteles não trata nada desse
aspecto.
O problema é que a história da filosofia é
escrita como deveria ter sido, e não como de fato foi. Destaca-se dessa maneira
outra forma de resolver o problema de casar as duas afirmações de Tales, que
seria transformando a água em deus, e aqui se deve analisar o significado dos deuses,
que seriam nada mais que uma energia física, puramente natural, além de não
pensarem nesse deus como objeto de culto. O que é característica da palavra
deus para toda essa época.
Étienne Gilson ainda destaca mais uma
forma de se resolver esse problema: levar em consideração que o filósofo queria
dizer exatamente o que ele disse. Também diz que é difícil responder, se
perguntassem a ele, a conotação da palavra deus para o grego. Ele diz, porém,
que seria possível responder, lendo toda a coletânea de obras dos Gregos
procurando a definição de deus.
Inicia tal análise por Homero e Hesíodo e
de início descobre que deus não significa deus. A origem dessa palavra não é
filosófica, teve origem nos mitos. Quando os filósofos começaram a utilizar já
estavam definidos por esses mitos. Portanto, deus podia ser uma pessoa (Zeus,
Hera, Apolo), uma realidade física (oceano, terra, céu), mas todos se referem a
energias vivas, dotadas de vontades próprias, agindo e influenciando sobre a
vida do outro e seus destinos.
Nesse ínterim, um Grego religioso se
sentia um instrumento na mão de todos esses deuses, que influenciavam seus
pensamentos e atos. Assim, Gilson elenca algumas características desses deuses,
entre elas que são todos vivos, que não são inanimados, que nunca morrem e se
relacionam muito mais com o homem que com o mundo. Fato interessante é que
esses deuses às vezes tem que ceder a deuses do mesmo patamar, além de ter um
poder regulador, que é a vontade o destino. Depois de ter dado seu
consentimento, um deus (no caso o maior de todos: Zeus) não pode voltar atrás,
pois a vontade é uma com a sorte (portanto, a vontade de Zeus é como o
destino).
Dessa forma, Étienne Gilson define um deus
grego como: “um deus, para qualquer ser vivo, é qualquer outro ser vivo que ele
reconhece como influenciado em sua vida”. Assim se consegue analisar a
dificuldade de um filósofo grego em utilizar a palavra deus. A questão agora
consiste em saber se tais filósofos acreditavam nesses deuses ou não. De fato a
segunda opção está mais adequada, mas ainda sim se encontram dificuldades caso tal
noção ainda estiver com alguma conotação religiosa.
Com isso, não se consegue definir que há
apenas um princípio para todas as coisas. Quando os filósofos gregos usavam a
palavra deus, tinham em mente, também, uma causa que não era uma simples coisa.
Vai surgindo, então, a dificuldade de encontrar a solução para a criação do
mundo.
Os filósofos gregos, ao analisarem o mundo,
tomavam a realidade como aquilo que eles podiam tocar e ver. Sendo assim, se
perguntavam: o que é? Querendo descobrir
sua natureza, de onde vem, qual o seu principio, de onde provém as suas ações.
Segue a afirmação: “Nada pode surgir a partir do que não existe”. Assim, o filósofo
vê que o mundo tinha que ter um princípio e terá um fim, ele o concebe como um
círculo eterno recorrente. Essas afirmações são expressões de como o filósofo grego
resolveria o problema da existência da natureza, mas tal explicação não cobre
os problemas da religião.
Tomando agora um viés mais histórico e
analisando especificamente o homem sobe o olhar dos filósofos gregos, afirma-se:
o homem conhece a si, pode ver que é real, que as outras coisas são reais e que
é o conhecimento que nos liberta e nos dá vontade de conhecer. Portanto, podemos conhecer e ter vontades.
Aqui, gera-se um problema: como explicar tal vontade sem atribuir ao primeiro
princípio uma vontade? É dai que provém a mitologia, que mais tarde gerará a
religião.
Não é do mito, porém, que surgirá a
filosofia (a ciência) que analisará o que é Deus, mas sim dessa religião que se
formará. É assim que surgem figuras como Platão e Aristóteles, justamente para
tentar explicar Deus. Aristóteles com seu motor imóvel e sua metafisica; Platão
com o demiurgo e as ideias. Portanto, o que se vê são os filósofos gregos
sistematicamente tentando explicar a natureza através de um princípio que eles
consideravam como coisas que faziam parte da própria natureza. Chegado o final
desse período era necessário para o avanço da teologia natural e da herança
metafísica deixada por Aristóteles.
Na sequência, Étienne Gilson expõe no
segundo capítulo de seu livro, intitulado Deus e a filosofia cristã, período em
que ocorreu a mudança metafísica que era necessária e foi guiada pela religião.
Enquanto os filósofos gregos se interrogavam qual lugar atribuir aos deuses, os
judeus haviam encontrado o próprio Deus que falara seu nome e que respondia as
perguntas aos problemas metafísicos. Tal Deus se revelou na história a eles e
não era fruto de poetas.
A primeira característica desse Deus era a
sua unicidade. Só havia um Deus, uma coisa, alguém. Com a pregação do Evangelho
deixado pelo Deus dos judeus, ele deixou de ser um Deus particular tornando-se universal
para todos os homens. Um fato importante é que o deus da filosofia é o mesmo da
religião. Agora se pode analisar o Deus revelado com a filosofia Grega de
Platão e Aristóteles e reparar muitas semelhanças. Por exemplo, em Platão se
diz que Deus é “Aquilo que é” e Deus quando se revela a Moisés diz “Ele que é”.
Se alguém é ele também é uma coisa.
Ressaltava-se que o Cristianismo não era
em si mesmo uma filosofia, e sim uma doutrina religiosa para salvação dos
homens através de Jesus Cristo. E neste contexto nasce a filosofia cristã,
advinda da técnica da filosofia grega tentando uma explicação racional do mundo.
Os gregos não foram além da teologia natural de Platão e Aristóteles e agora
Deus é o ponto mais profundo da realidade (existência), mas ainda se constitui
um problema: o que é tal realidade (existência)?
Tal união de filósofos gregos com cristãos
se dá quando Agostinho começa a ler obras gregas, entre elas “Enéadas” de
Plotino e identifica o que Plotino absorveu de Platão: o bem e o uno. Uno é
entendido como uma unidade que subsiste e de onde vem toda a multiplicidade, de
tal uno se dá o bem, pois ele é preciso para que se dê a multiplicidade. Disso
provém o intelecto, que é o conhecimento de tudo o que é inteligível.
O intelecto em Plotino é lugar de todas as
ideias e essas ideias estão em unidade múltipla e inteligível no uno, como se
fossem seres individuais. Disso se tira a questão: quando podemos afirma que
algo é? Podemos afirmar que algo é quando inteligimos este algo. Essa era a
forma de pensamento de Plotino, o que fez Agostinho foi tentar exprimir o Deus
do cristianismo com todos os seus atributos em termos da filosofia Grega.
Caso a análise fosse pela via histórica
seria difícil responder a questão proposta acima, mas Agostinho consegue tal
façanha lendo Plotino.
O que é o Uno senão Deus Pai e o intelecto senão Deus Filho. Encontra-se, porém,
algumas diferenças metafísicas no deus de Plotino e no Deus cristão. Por se
tratar de um deus grego, o deus de Plotino não é uma realidade suprema e nem o
princípio último da inteligibilidade. Diferente da filosofia cristã em que Deus
é o principio supremo, um ato puro de existir com uma infinita fecundidade.
Por possuir essa fecundidade, Deus tem que
gerar mais alguém, outra pessoa, mas não outro Deus: trata-se do Filho. Mas
existem coisas além de Deus, logo o ser de Deus é diferente do das coisas
criadas. As coisas criadas só podem existir porque recebem seu ser desse Deus; ser
esse que lhes é dado livremente. Tal movimento é chamado na filosofia cristã de
criação. Portanto, tudo aquilo que comunga da unidade de Deus é gerado e o que
não comunga é criado.
Dessa forma, é descrito o mundo cristão de
Santo Agostinho: um Deus que é Trindade, mas com uma substância única que
existe por si só, e aquilo que não é Deus: as coisas criadas (que possuem a
existência dada por Deus). Assim entre Deus
e nós, como diz o autor, “Existe um abismo metafísico”, e não podemos alcançar
esse Deus a não ser que Ele venha até nós. Nasce assim dificuldade de não
conseguirmos chegar ao Deus transcendente, logo defini-lo é o problema da
teologia natural.
Santo Agostinho, tentando resolver tal
dificuldade, utilizou-se das técnicas de Platão, dadas por Plotino, e pensou
que a dialética para gregos é uma tentativa da alma humana de se libertar de
todas as imagens materiais tentando contemplar as ideias inteligíveis. E assim,
batizando tal doutrina, afirma que a alma humana não participa diretamente da
luz de Deus, e que tal luz a ilumina com a palavra de Deus que nos leva a
conhecê-lo. Disso surge outra questão: porque o homem não recorre sempre a essa
iluminação?
Surge um problema para responder tal
questão: Agostinho, de acordo com o autor, herda de Plotino, e por sua vez de
Platão, a definição de homem. Nela, o homem não era uma substância com corpo e
alma, mas somente uma alma eterna, que mesmo que esteja ligada a um corpo
sempre existiu. Ou seja, o homem é uma alma que usa um corpo. Sendo assim, de
acordo com Platão e Plotino, a alma seria um deus menor. Essa é a dificuldade
que o bispo de Hipona encontra para chegar ao Deus cristão utilizando métodos
de Platão e Plotino.
Para Agostinho e os gregos tudo o que era inteligível,
imaterial e verdadeiro era divino. Mas, para o bispo recém-convertido, o homem
não pode ter acesso às coisas divinas, já que não pertence à ordem divina. Mas,
se a verdade é divina e o homem não é deus, o homem não pode estar na posse da
verdade, mas ele está. Ele explica que o homem, que não é deus, chega a verdade
a partir da iluminação de Deus.
Por diversas vezes Agostinho provou tal
ensinamento, porém Gilson pergunta por que devemos pensar que a verdade é
objeto de conhecimento mais que humano? Pois o Deus do bispo de Hipona é o
verdadeiro Deus cristão, para descrevê-lo ele usa termos gregos, como a
imaterialidade, a inteligibilidade, a imutabilidade e a unidade. A verdade se
encaixa nesses termos, portanto pertence a Deus. Quando se trata de criação
Santo Agostinho a define com conceitos próprios: criar é dar a existência, o
ser, uma vez que tal ser significa ser tanto inteligível quanto uno. Assim o
que permanece de grego no seu pensamento é a noção do ser (noção essencial do
ser).
Demorou até que o bispo de Hipona fosse
superado, pois ele foi até o máximo da ontologia grega, quase no limite
metafísico. O progresso ocorreu por volta do século XIII com São Tomas de
Aquino, que utilizou o método metafísico de Aristóteles. Tomás se pergunta por
que dizemos que Deus é “Ele que é”? E responde que é porque ele significa ser,
mas o que é ser? Aqui se inicia a sua jornada metafísica.
O Doutor Angélico alerta que deve se
distinguir duas palavras, que possuem significados diferentes, mas que estão
ligadas: Ente e Ser. Ente é aquele que é ou existe (substância); Ser é um ato
primitivo e fundamental pelo qual a coisa é. Assim o ato de todos os atos é o
ser e o mundo é cheio de entes que existem, tal mundo só pode ser explicado por
um Deus supremamente existencial.
Tomás afirma que todos os seres pensantes
conhecem implicitamente Deus em todas e qualquer coisa que conhecem, pois elas
têm seu ser derivado desse Deus. Cabe aqui uma distinção entre essência e ser.
Essência é o que faz com que a coisa seja o que ela é; ser, como vimos, é um
ato. Dessa forma a essência só pode ser potência em relação ao ser, pois é
preciso ser para existir.
Era esperado que os homens conservassem cuidadosamente
essa verdade fundamental (a metafísica de São Tomás), mas não o fizeram. Essa é
a motivação de Étienne Gilson no terceiro capítulo de sua obra denominado:
“Deus e a Filosofia Moderna”. De fato pode-se verificar essa mudança analisando
o perfil dos filósofos: antes eram padres, monges ou clérigos, mas na
modernidade isso muda completamente: agora é uma filosofia feita por leigos, não
mais tentando responder a dúvida de Deus e sim do homem o que ele é.
Tal mudança se inicia com a figura de
Descartes em sua obra “Discurso do Método”, na qual ele busca conhecimentos que
pode encontrar em si mesmo ou no grande livro do mundo. Dessa forma, ele não
quer dizer que negaria a religião, nem que a teologia era objeto de seu estudo.
Assim, Descartes rompe com a ideia medieval de saber.
Para o Doutor Angélico, teologia é a
expressão do saber, pois o próprio objeto dela é Deus e não há algo maior que
Ele. Por isso, o primeiro moderno nunca criou qualquer objeção à teologia, até
porque ele mesmo era cristão. Mas como filósofo procurava uma sabedoria
diferente das primeiras causas, algo que era possível ser atingido apenas pela
razão natural e dirigido a objetos práticos e temporais sem a luz da fé. A
novidade em Descartes, portanto, é a separação entre a filosofia e a teologia.
Tais afirmações feitas por Descartes
parecem um retorno aos gregos, pois não existe um objeto que reúna todas as
coisas. Não é isso que realmente acontece, pois Descartes é religioso e para
ele não existia duvida que o primeiro princípio era Deus. Por isso, o Deus de
Descartes é o Deus cristão e Ele se funda na ideia da existência de algo maior
que tenha o poder de criar, e esse algo maior não fica só no pensamento, Ele
transcende, logo é Deus.
Descartes criou um método a partir da dúvida
para que se pudesse purificar os muitos conhecimentos que já haviam sidos
desenvolvidos até sua época. Esse é o grande mérito de sua filosofia: seguir um
método único e verdadeiro. A ideia de Deus, passando por este crivo, é a pedra
angular da metafísica e da física. Deus, portanto, é na filosofia desse
modernista o que nos permite explorar o mundo cientificamente, pois Ele é
verdadeiro e me criou, logo o que ele criou é verdadeiro.
O mundo de Descartes era mecânico, no qual
qualquer coisa poderia ser explicada pela matemática e física. Assim o
principal atributo do Deus cartesiano seria a onipotência de causar este mundo.
“Uma energia de existência que é a causa de si própria”, “... uma infinita e
poderosa fonte de existência” diz Étienne Gilson, diferente do Deus de são
Tomas, que era um infinito oceano de existência.
A essência do Deus cartesiano é
determinada pela sua função filosófica, que é criar e preservar o mundo
mecânico. Há aqui uma diferença com o Deus cristão, pois o Deus cartesiano
existe para criar. É o Deus do cristianismo reduzido a condição de principio
filosófico. Gerou-se um efeito na história: separar o Deus da filosofia com o
Deus da fé.
Muitos sucessores de Descartes tentaram
juntar a base da filosofia cartesiana com a teologia natural, mas, de acordo
com Étienne Gilson, muitos falharam. Gilson destaca Malebranche, um padre do
oratório (quase um místico). Ele, enquanto metafísico, juntou Agostinho com Descartes
e, assim, postula Deus como a única fonte de eficácia casual, tanto na ordem do
conhecimento, quanto na ordem das causalidades físicas. Como teólogo, defende
que Deus age em conformidade com o que Ele, sua única ação é a gloria na pessoa
de Jesus Cristo (sua própria luz).
Com Malebranche é recuperada a doutrina
agostiniana de um Deus que conhece todas as coisas, através do conhecimento das
próprias ideias eternas, e que conhece tais ideias através de sua própria
substância. Só que aqui encontramos um furo em tal doutrina, que entrou o
pensamento cartesiano, pois Deus é um mundo infinito de leis inteligíveis. O
resultado é um Deus sobrenatural cuja vida interior foi concebida de acordo com
o mundo cartesiano.
Leibniz, bebendo também da filosofia
cartesiana, concebe Deus como causa concebível das essências, um ser cuja essência
inclui a existência, um ser absolutamente perfeito. Para Espinosa Deus é um ser
ou substância absolutamente infinita, pois sua essência implica na existência. Seria
um Deus somente filosófico, rejeitando completamente a religião. Para Espinosa
o Deus cristão se torna um mito. Para escaparmos de tal pensamento devemos
entender o ser novamente como existência da essência.
Étienne Gilson chama a atenção ao fato de
os deístas concordarem com alguns aspectos do Deus de Espinosa, mas eles tinham
um próprio Deus, um ser supremo, adorado por todos os homens pelas regras de
louvor e adoração, mas que pode ser ofendido pelo crime e aguarda o homem pedir
desculpa por pecar, e que a justiça tem que ser cumprida, seja nessa ou em
outra vida. Mas tal Deus deísta era apenas um espectro do Deus dos cristãos,
mas sua morte filosófica já havia se iniciado com Espinosa.
Dessa forma, Deus cada vez mais vai se
tornando um demiurgo, um mito filosófico. Se a pergunta para algum
contemporâneo é se tal mito existe a resposta é não, mas esse fato não prova
que não há nenhum Deus. É dessa maneira que Étienne Gilson invoca o último
capítulo de sua obra: “Deus e o Pensamento Contemporâneo”.
A posição contemporânea, diz Étienne
Gilson, é dominada pelos pensamentos de Immanuel Kant e Auguste Comte. Tratam-se
de doutrinas diferentes, mas a crítica de Kant e o positivismo de Comte tem em
comum o fato de o conhecimento ser reduzido ao conhecimento científico que
deriva da física e da matemática. Assim,
por mais que procuremos, nenhum fato irá corresponder a Deus, pois ele não é
objeto de conhecimento empírico. Nesse ínterim a teologia natural desaparece.
Para se entender por completo o problema
proposto por eles, Étienne Gilson retoma o que já fora dito em capítulos
anteriores: que vindo depois dos gregos, os filósofos cristãos se perguntaram como
obter da metafísica grega uma resposta aos problemas suscitados pelo Deus
cristão? Após séculos de trabalho, São Tomás encontra a resposta, e por isso o
uso da linguagem de Aristóteles para falar das coisas cristãs. Depois aparecem
Descartes, Leibniz, Malebranche e Espinosa que são confrontados com outros
problemas: como justificar o mundo da ciência metafisicamente.
Dessa forma, muitos deles ainda utilizavam
a linguagem escolástica para definirem seus conceitos, pois Descartes e Leibniz
não tinham uma Metafísica própria. Santo Agostinho e São Tomás buscaram suas
técnicas nos pensamentos gregos, e, por sua vez, Descartes e Leibniz recorreram
aos filósofos cristãos. Deus era de certa forma ainda criador.
Com o pensamento de Kant e de Comte tudo muda:
Deus não é um objeto apreendido nas formas a
priori da sensibilidade e não pode ser relacionado com mais nada através da
categoria da causalidade. Assim, para Kant, Deus pode bem ser uma ideia pura da
razão, ou seja, um princípio geral de unificação das nossas cognições. A
existência de Deus torna-se então um postulado, não uma cognição. Em Comte, a
ciência não tem utilidade para a noção de causa. Os cientistas nunca pararam
para refletir ‘por que’ acontecem, mas ‘como’ é que elas acontecem. Logo,
substituí-se a noção positivista de relação pela noção metafísica de
causa. Isso é acabar com a existência de
Deus.
Assim, sabe-se que os deuses de Espinosa,
Leibniz ou Descartes, são meros subprodutos resultantes da decomposição
filosófica do Deus cristão vivo. Deve-se escolher, então, entre Kant e São
Tomas de Aquino. Todas as outras posições não passam de obstáculos no caminho,
que levam tanto ao agnosticismo religioso absoluto como à teologia natural da
metafísica cristã. O homem, fascinado pela ciência, por não deixar de se
perguntar por Deus, tem uma dificuldade para voltar a São Tomas.
Na sequência, Étienne Gilson inicia a
discussão de como ele mesmo vê o desenvolvimento dessas duas doutrinas no mundo
atual. Em relação a Deus e a teologia natural, com Kant afirmando que a
existência de Deus não podia ser demonstrada, a Teologia natural fica sujeita
ao método da metafísica e não da ciência positiva.
Assim, o problema da modernidade não é
serem agnósticos, mas serem teólogos pouco judiciosos, a questão aqui é a causa
final. A ciência somente consegue explicar até o que é do mundo dos fenômenos,
mas para explicar o porquê uma coisa é, vê-se necessário pensar em ato puro de
existência, e a metafísica é a grande ciência que deve ajudar nisso.
O pensamento contemporâneo
sobre Deus é dominado por Kant e Comte. Este pensamento procura o “como”
acontecem as coisas e não o “porque”, e substitui a noção de causa pela do
positivismo, ou seja, passou a ser somente empírico, e sendo assim conhecer a
Deus é impossível, pois ele não é passível de experiência. A teologia natural
por sua vez é colocada à prova e Gilson tenta mostrar que ela tem seu lugar e é
importante inclusive para metafísica.
Étienne Gilson, através
do livro estudado, procurou fazer um estudo de como foi discutido ao longo da
história a ideia de Deus, desde os gregos até os seus contemporâneos. E, por
fim dá a sua opinião do que viria a acontecer com os pensadores atua
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