Resenha - A relação entre Conferência de Aparecida e Evangelli Gaudium

Resenha – A relação entre os documentos da Conferência de Aparecida e Evangelli Gaudium

 

                                                                                                                                 Romulo Freire

A V Conferência Episcopal Latino-Americana de Aparecida constitui um marco histórico importante para a Igreja desta região, com intenção de iniciar algo novo, com esforço, coragem, fazendo-se uma forte comoção que impeça a Igreja de se instalar na comodidade, uma atitude de permanente conversão pastoral, imaginação para responder aos novos desafios, criatividade para chegar às multidões que desejam o Evangelho e novas atitudes pastorais por parte dos responsáveis. Trata-se de assumir uma nova mentalidade que implica escutar com atenção e discernir o que o Espírito está dizendo às Igrejas, através dos sinais dos tempos em que Deus se manifesta.

     Com as transformações sofridas pela sociedade, emergem novos contextos que representam novos desafios, daí a necessidade de reformas não só espirituais e pastorais, mas também institucionais.

            A dificuldade experimentada pela Igreja em ser sinal da salvação de Jesus Cristo para nossos contemporâneos resulta, em boa parte, do que as pessoas percebem e experimentam da Igreja em sua realidade fenomenológica, apesar das corretas, mas inócuas, afirmações teológicas sobre a mesma.

            Não é de espantar que a linguagem e as estruturas da realidade social envolvente sejam assumidas em parte pela Igreja para que ela possa ser captada, entendida e acolhida pela sociedade, caso contrário, sua identidade teológica permaneceria desconhecida, inacessível e opaca para seus contemporâneos.

A cristandade não significou sem mais que as populações de então tenham sido efetivamente evangelizadas, mas desenvolvendo uma pastoral de conservação do rebanho que não consegue emergir a atividade missionária como tarefa própria de cada cristão, uma instituição que não mais se remete ao transcendente que a fez nascer, que apenas busca perpetuar, deixa de ser mediação.

            O Concílio Vaticano II significou uma mudança decisiva para esta configuração eclesial, pois aceitou dialogar com a sociedade civil, avaliar a cultura da Modernidade, assumir alguns de seus elementos, atualizar sua pastoral pelo contexto real onde vivem os católicos, reconhecer a importância das Igrejas locais e a necessária inculturação da fé.

            Essa comunidade de fé, contudo, é também uma comunidade humana, distinguindo de outros grupos humanos enquanto apresenta quatro componentes relacionados entre si e que devem ser comuns aos seus membros. Primeiramente uma experiência partilhada por todos, o que implica situações existenciais, com seus desafios atingindo a todos, plasmando assim uma história comum. Logo, seus membros devem chegar a compreensões da realidade também comuns, que possibilitem avaliações comuns. Finalmente, requerem-se decisões comuns em vista de valores comuns para que essa comunidade se torne efetiva.

Como instrumento e sinal do Reino de Deus na história, é importante que a Igreja viva realmente os valores evangélicos. Não basta sabermos teorias, mas se deve deixar transparecer na vida de seus membros que a salvação de Jesus Cristo já é uma realidade em seu seio.  Se sua mensagem é contradita pela sua maneira de vida, então sofre a Igreja em sua própria finalidade de sacramento da salvação.

            A catolicidade da Igreja não pode ser considerada uma universalidade que aniquilasse as características próprias de cada povo ou região, para isso a Igreja deverá se inserir no contexto sociocultural onde se encontra, aproveitando as instituições dos povos para expressar a glória do Criador. Através do discernimento dos sinais dos tempos, dos desafios existenciais, dos carismas diversos que desperta, o Espírito Santo é não só princípio de unidade, mas também de diversidade. Para muitos não é fácil aceitar tais verdades por causa do peso do passado (centralismo romano, uniformidade como unidade, nostalgia da cristandade).

Os quatro eixos a serem reforçados, segundo o texto de Aparecida, são: a experiência religiosa, a vivência comunitária, a formação bíblico-doutrinal e o compromisso missionário de toda comunidade. Essas metas jamais serão alcançadas sem uma mudança de mentalidade por parte dos responsáveis eclesiásticos e sem uma transformação institucional que possibilite sua realização efetiva, passando de uma pastoral de conservação para uma pastoral missionária.

As causas históricas dessa crise não tiveram expressão no texto de Aparecida, no entanto, vale ressaltar que por união da Igreja com a Coroa, facilitou-se a expansão do Evangelho, porém tornou a Igreja dependente do poder civil. Daí uma fragilidade institucional na primeira República, apoiada na monarquia, daí a ausência de uma pastoral de conquista já que todos eram católicos. A Igreja influenciava a sociedade através do poder civil, impossibilitando uma ação própria de um laicato consciente, influenciando pouco a vida dos católicos, despreocupado de doutrinas e sacramentos. Diante do poder instituído, Igreja ou coroa sempre unidas, o católico era passivo, porque tudo já vinha resolvido de cima.

A conversão pastoral pressupõe um olhar atento para a sociedade concreta com os seus anseios, insuficiências, valores, a fim de perceber como melhor lhe transmitir a mensagem evangélica, por uma atitude de permanente conversão pastoral que implica abertura para o novo, uso da imaginação para encontrar respostas aos muitos e sempre mutáveis desafios que a realidade coloca, exigindo novos serviços e ministérios, devem ser criativos para chegar ao grande número de afastados da Igreja, liberdade diante do tradicional, novas formas para evangelizar de acordo com as culturas e as circunstâncias e a renovação eclesial que implica reformas espirituais, pastorais e institucionais (estruturais), abandonando as ultrapassadas estruturas que já não favorecem a transmissão da fé com a reformulação estrutural da paróquias.

É preciso oferecer a todos os fiéis um encontro pessoal com Jesus Cristo, uma experiência religiosa profunda e intensa, pelo anúncio salvífico (o querigma) como finalidade da iniciação cristã, não estando ausente de todo processo de formação, sem separar doutrina de experiência. Para isso não basta uma experiência que se torne intimista, mas é necessário que ela impulsione a ir ao serviço aos mais pobres e no amor que por eles se sacrifica, fruto inquestionável da ação do Espírito de Cristo.

A importância dos pobres na configuração eclesial tem seu fundamento na própria revelação. As razões provenientes das Ciências Sociais, do choque provocado por uma experiência direta, da compaixão que estimula a ação, o amor universal de Deus pela humanidade revela um cuidado especial para com os mais carentes e indefesos da sociedade. A opção pelos pobres se enraíza no próprio Deus, em seu modo de agir, em seu revelar-se, em seu próprio ser, Jesus Cristo que durante sua existência aqui na terra teve uma vida de pobre.

O Documento de Aparecida retoma as palavras de Bento XVI em seu discurso inaugural: “a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para nos enriquecer com sua pobreza”. A Igreja latino-americana é chamada a ser sacramento de amor, solidariedade e justiça entre nossos povos, numa palavra: a ser o que deve ser como sinal salvífico na história, o que não acontecerá sem uma configuração adequada, significativa e pertinente para a realidade na qual existe. A grande maioria dos católicos da América Latina é pobre, importante que esta comunidade de fiéis possa ser “morada de seus povos” e “casa dos pobres de Deus.

A comunidade cristã é uma comunidade humana vivendo sempre em contextos diversos no curso dos séculos e na ampla extensão da terra. A obediência ao Espírito passa pela atenção “aos sinais dos tempos” e pela fidelidade ao que pede a realidade, experiência e resposta de fé que leve ao seguimento da vida do Mestre de Nazaré.

Análise crítica relacionada com a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium

O Papa Francisco ressalta na Evangelii Gaudium sua visão eclesial e pastoral tendo como palavra-chave “a Misericórdia” e apresentando um novo modelo de ser Igreja, voltado para o Povo de Deus. Interpela a Igreja a ser pobre para os pobres fiel ao Evangelho na escuta, no anúncio e no testemunho de modo a construir uma civilização em que todos têm o direito de serem chamados de “humanos”.

Como um caminho de conversão pastoral, é preciso fazer-se leitor dos documentos atuais que são lançados pela Igreja, mas por vezes ficam esquecidos, não despertam tanto interesse, pouco estudados, aprofundados e transmitidos de modo que as pessoas obtenham o conhecimento daquilo que é o momento atual da Igreja e nos é pedido como caminho de crescimento no amor e na fé.

A Igreja nos chama a uma vida que se envolve na missão, no testemunho, uma Igreja em saída por um dinamismo evangelizador que saia das estruturas, pois se não há vida nova e espírito evangélico autêntico, sem fidelidade da Igreja à própria vocação, toda e qualquer nova estrutura se corrompe em pouco tempo.

A nova evangelização deve implicar um novo protagonismo de cada um dos batizados, para que ninguém renuncie ao seu compromisso de evangelizar, pois se uma pessoa experimentou verdadeiramente o amor de Deus que a salva, não precisa de muito tempo de preparação para sair a anunciá-lo, não pode esperar que lhe deem muitas lições ou longas instruções. Todos temos que ter uma formação melhor, um aprofundamento do nosso amor e um testemunho mais claro do Evangelho, nesse sentido, todos devemos deixar que os outros nos evangelizem constantemente para encontrar o modo de comunicar Jesus que corresponda a situação em que vivemos. Tanto a samaritana como São Paulo, depois do encontro com Jesus começaram imediatamente a proclamar que Jesus era o Filho de Deus. Desse modo, a nossa imperfeição não deve ser desculpa, mas a missão deve ser um estímulo para não nos acomodarmos na mediocridade mas continuarmos a crescer.

O anúncio do querigma que visa a conversão do coração e o aprofundamento da fé, não se dá pelo ensino da doutrina, a princípio como muitos fazem, mas de convencer a pessoa que Deus a ama incondicionalmente e de faze-la se sentir amada no seio da comunidade que a acolhe e a acompanha em seu crescimento no amor. Esse anúncio não quer dizer que situa no início e depois esquece ou substitui por outros conteúdos, mas é o primeiro em sentido qualitativo, porque é o anúncio principal, aquele que sempre se tem de voltar a ouvir de diferentes maneiras, que sempre tem de voltar a anunciar de uma forma ou de outra em todos os momentos.

Aceitando o primeiro anúncio, deixar-se amar por Deus e amá-lo com amor que Ele mesmo nos comunica, provoca na vida da pessoa, nas suas ações uma primeira e fundamental reação: desejar e procurar o bem dos outros. É no irmão que está o prolongamento permanente da Encarnação para cada um de nós, aquilo que fizermos aos outros tem uma dimensão transcendente. A Igreja é missionária por natureza, também brota inevitavelmente dessa natureza a caridade efetiva para com o próximo, a compaixão que compreende, assiste e promove, principalmente os mais pobres.

Fundindo esses documentos da Conferência Episcopal de Aparecida (2007) e o Evangelii Gaudium (2013), quantas advertências semelhantes que compreendem a beleza da reflexão teológica anunciada pela Igreja como necessidade para os tempos de hoje e que não devem ficar somente nas palavras, mas que devem ter um impulso animador no coração de cada cristão que um dia teve um encontro pessoal com o amor de Jesus que nos salva e dá sentido à nossa vida existencial na história.

 


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