UNÇÃO DOS ENFERMOS: DO ANTIGO AO NOVO RITO
Victor Benincasa Borejo
RESUMO
Unção dos enfermos trata-se,
diferentemente do que muitos pensam do sacramento da cura que nos permite partilhar
nosso sofrimento com Cristo, suplicar seu perdão e por fim em último caso nos
preparar para a morte. “Está alguém enfermo? Chame os sacerdotes da Igreja, e estes
façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor” [1], esta é à base do sacramento
que por muito tempo pôde ser executado por qualquer cristão. Após alguns
períodos foram revisados e aprimorados seus ritos, até chagarmos ao rito atual.
Nesta obra será apresentada um pouco da história do caminho deste sacramento.
INTRODUÇÃO
A doença e a morte hoje e
sempre, mostram para o homem o quão finito e fraco ele é, mas Cristo em sua
vida instituiu um sacramento para, de certa forma, podermos nos confortar e
partilhar com Ele esta dor e sofrimento das enfermidades.
O sacramento significa a
presença e a salvação de Deus junto ao doente e também a solidariedade da
Igreja para com ele.
No Antigo Testamento o
doente era convidado a confiar em Deus porque a ele pertencia à vida e a morte.
Em geral, com os enfermos se usava remédios caseiros, como óleo de oliva [2] e vinho nas feridas[3].
Jesus diante dos doentes
tinha um carinho todo especial sabia escutar os lamentos e os apelos dos
enfermos. Vai a eles e, com um toque, um gesto, uma palavra os cura.
A enfermidade em si é
símbolo do pecado da humanidade; as curas, símbolo da vitória de Cristo sobre a
força do mal.
Jesus quando enviou os
discípulos deu-lhes uma missão, em nome d’Ele, colocariam a mão sobre os
enfermos, os ungiriam com óleo e os curariam [4] e confirmado por Tiago: se
alguém dentre vós estiver doente que chamem o presbítero da Igreja para que
faça uma oração sobre o enfermo e o unja com óleo[5], como vimos no resumo
desta obra, está edificado o sacramento da unção dos enfermos.
Trata-se do sacramento da
cura, mas a sua finalidade primeira não é a cura física e sim entregar ao
Senhor, sofredor e glorificado, o doente para que os alivie e o salve[6] e consiga superar sua
doença ou até mesmo se preparar para sua morte.
A UNÇÃO NA IGREJA PRIMITIVA
Nos
primeiros três séculos da Igreja não se têm muitos relatos da prática da unção
dos enfermos, muito menos como sacramento instituído por Cristo, talvez por
causa das perseguições que existiam também por duvidarem da autenticidade da
carta de Tiago. Somente a partir do século III temos alguns ritos da benção do
óleo, apresentado no livro de Hipólito: “Tradição Apostólica De
Hipólito De Roma”. E assim
indica como deve ser as bênçãos:
Se alguém oferecer
azeite, consagre-o como se consagrou o pão e o vinho, não com as mesmas
palavras, mas com o mesmo Espírito. Dê graças, dizendo: "Assim como por
este óleo santificado ungiste reis, sacerdotes e profetas, concede também, ó
Deus, a santidade àqueles que com ele são ungidos e aos que o recebem,
proporcionando consolo aos que o experimentam e saúde aos que dele
necessitam". (...) E, a cada bênção, diga: "Gloria a ti, ao Pai, ao
Filho e com o Espírito Santo na Santa Igreja, agora e pelos séculos dos
séculos. Amém”. [7]
Este
óleo era abençoado geralmente aos domingos, preferencialmente no Domingo de Ramos
e na Quinta-Feira Santa, depois com o tempo somente na Quinta-Feira Santa. Aplicado
por leigos, não era somente usado para os enfermos, mas também para o bem
corporal e espiritual dos batizados, além de mostrar para os pagãos que o óleo
que eles utilizavam era diferente do usado para fins terapêuticos.
Assim
se seguiu até o século VII, quando foi promulgado que a benção do óleo podia
ser somente feita pelos bispos ou sacerdotes na Quinta-Feira Santa. A partir do
século VIII somente aos bispos, mas mesmo assim este óleo era entregue aos
leigos para que eles ungissem os enfermos cristãos. Como narra São Beda:
A atual praxe
da Igreja quer que os enfermos sejam ungidos com óleo consagrado e que sejam curados pela oração que
acompanha a unção. E não só aos sacerdotes, mas, como escreve o Papa Inocêncio,
também a todos os cristãos é lícito fazer uso do mesmo óleo, realizando, eles ou os
seus caros, uma unção quando a doença os molesta.
Todavia só ao Bispo é permitido benzer tal óleo.[8]
REFORMA
CAROLÍNGIA E CONCÍLIO DE TRENTO
No
século IX, após a reforma carolíngia, são vistos os primeiros rituais da Unção
dos Enfermos e sua administração passa a ser feita única e exclusivamente pelo
clero. Também começou a ser aplicada com outros sacramentos que o cristão
recebe no fim da vida (Penitência e Eucaristia) por ser vista como o ultimo
remédio da Igreja, o centro não era mais a bênção do óleo, mas a administração
da Unção e era considerada graça de preparação para a morte destacando seus
efeitos espirituais sobre o corpo, além de só poder ser recebida apenas uma vez
na vida. No século X o óleo era visto
como um purificador dos males causados pelos pecados.
Já
no século XIII, no primeiro Concílio de Lião, a unção dos enfermos ganha o nome
de extrema-unção por ser a última unção dada ao cristão em vida e era celebrada
geralmente depois do viático. Esta mudança de nome contribui para que os cristãos
tivessem medo de chamar os sacerdotes. Assim esperavam o enfermo perder a
consciência para não assustá-lo com a presença do sacerdote.
Após
alguns séculos no Concílio de Trento, enfrentando a oposição dos protestantes é
declarado que a extrema-unção é verdadeiramente um sacramento instituído por Cristo,
ressalta também que esta unção deve ser dada aos que estão em perigo de morte e
pode ser recebida novamente se, por ventura recair em enfermidade. E ainda declara sobre este sacramento:
É a graça do Espírito
Santo, cuja unção purifica os pecados, caso ainda reste alguns a serem
expiados, assim como vestígios de algum pecado, alivia e fortalece a alma do
enfermo, fazendo nascer nele uma grande confiança na Divina Misericórdia, e
alentado com ela, poderá sofrer com mais tolerância a incomodidade e ações da
enfermidade e também resistirá com maior facilidade às tentações do demônio,
que lhe coloca considerações para fazer-lhe cair, e enfim o consegue em algumas
ocasiões, a saúde do corpo e quando é conveniente, também a saúde da alma. [9]
VATICANO II
Com
a reforma do Concilio Vaticano II, novamente foram revistos os ritos da unção,
que foram adaptados conforme a nova reforma que visavam à simplicidade do rito,
a clareza nas palavras, a maior participação do povo e do enfermo entre outras
coisas. Também seu nome foi alterado para Unção dos Enfermos, podendo agora ser
recebida por todos os que estiverem em perigo de morte, por doença ou doença na
velhice, ungindo-os nas mãos e na fronte com óleo de oliveira. Podendo esta ser
reiterada caso o doente se recuperar e depois cair novamente em enfermidade ou
também se o perigo de morte se agravar.
A
reforma também permite ao presbítero (geralmente o pároco), quando em
necessidade, abençoar qualquer óleo vegetal, dentro do rito, ministrar a santa
unção e depois queimá-lo. Seguindo a
seguinte oração:
Ó
Deus, Pai de toda a consolação, que pelo vosso Filho quisestes curar os males
dos enfermos, atendei à oração da nossa fé: Enviai do céu o Espírito Santo
Paráclito sobre este óleo generoso, que por vossa bondade a oliveira nos
fornece para alivio do corpo, a fim de que pela vossa santa bênção, seja para
todos os que com ele forem ungidos proteção do corpo, da alma e do espírito,
libertando-os de toda dor, toda fraquezas e enfermidade. Dignai-vos abençoar
para nós, ó pai o vosso óleo santo, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. Que
convosco vive e reina na unidade do Espirito Santo. [10]
A
unção no vaticano II passa então a ser destinada aos doentes e aos idosos
doentes em perigo de morte, e não mais somente àqueles que estão somente em
perigo de morte. Também se tem a
recuperação do efeito curativo do sacramento, a diversas opções da celebração
deste sacramento (com ou sem viático, em casa ou na Igreja, um ou vários
doentes).
Estas
mudanças caminharam para que este sacramento deixado por Cristo realmente
possam, por meio da imposição das mãos do presbítero, unção com o óleo e a
oração da Santa Igreja, dividir e entregar o sofrimento dos agonizantes a
Cristo o médico dos médicos.
CONCLUSÃO
A
Unção dos Enfermos nos primeiros séculos de Igreja de fato não era considerada
um sacramento, mas apenas um sacramental que poderia ser ministrada até por
leigos. A Igreja então conduzida pelo Espirito Santo e baseada nas sagradas
escrituras, propõe a ela ritos e doutrinas próprias, que ainda com o passar dos
séculos são refinados, e assim a considera um sacramento instituído por Cristo
nosso senhor. Sendo agora somente ministrada pelo presbítero e o bispo (por
perdoarem os pecados) aos quais cabem abençoar (principalmente ao bispo e ao
sacerdote em necessidade), guardar e levar o santo óleo para a unção.
Ressalta
também sua importância para todos os batizados, de poderem unir seu sofrimento
com o sofrimento de Cristo que redimiu a todos na cruz, suplicar o perdão de
Deus, em alguns casos a cura corporal e espiritual em outros a preparação para
se encontrar com Ele.
REFERÊNCIAS
AQUINO,
Felipe. Coleção Sacramentos. Unção dos Enfermos. São Paulo: Canção Nova, 2007.
BÍBLIA.
Português. A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2004.
CATECISMO
DA IGREJA CATÓLICA. 3ª ed. Vaticano: Loyola; São Paulo, 2000.
CNBB.
Sacramentário. 1ª ed. São Paulo: Paulus, 2014.
DENZINGUER,
H. Compendio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. São Paulo:
Paulinas/ Loyola, 2007.
ERNESTO,
Roman. A Unção dos Enfermos para o Povo. 3ª ed. São Paulo: Paulus, 2009.
PAULO
VI, Constituição Apostólica Sacram Unctionem Infirmorum. Roma, 1972.
ROMA,
Hipólito. Tradição Apostólica de Hipólito de Roma. Liturgia e catequese em Roma
no século III. Tradução Maria Gloria Novak. 1ª ed. Petrópolis: Vozes, 2004.
[6] Cf. PAULO VI, Constituição
Apostólica Sacram Unctionem Infirmorum. Roma, 1972.
[7] ROMA,
Hipólito. Tradição Apostólica de Hipólito de Roma. Liturgia e catequese em Roma
no século III. Tradução Maria Gloria Novak. 1ª ed. Petrópolis: Vozes, 2004.
[10]
CNBB.
Sacramentário. 1ª ed. São Paulo: Paulus, 2014.
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