A ética de Cristo de José M. Castillo
RESENHA
Adriano da Silva Oliveira - Aluno da Graduação em Teologia na PUC-SP
CASTILLO,
José M. A ética de Cristo / José M. Castillo; tradução de Alda da Anunciação
Machado. – São Paulo, SP: Edições Loyola, 2016.
A
presente obra vem para nos indagar sobre a nossa realidade e muitos conceitos
que trazemos arraigados em nossas mentes como se fossem clausulas pétreas. Mas
o autor vem demostrar que somos seres em constante mudança, de modo especial em
nossa vida privada. E a pessoa de Cristo é um evento que provocador de mudanças
desde da sua época até a atualidade.
Faz-se
necessário hoje que estejamos permeados de Cristo para que assim possamos reler
toda a realidade com os olhos de Jesus, assim como ele mesmo fez no Evangelho,
“Não penseis que vim abolir a lei e os profetas. Não vim para abolir,
mas para dar-lhes pleno cumprimento”(cf. Mt 5,17). Sabe-se que
plenitude da Lei é o Amor, e é isso que Cristo deseja, que o amor seja o
principio e o fim da lei, para isso, é necessário que seja rompido toda e
qualquer forma de legalismo presente na vida do cristão, seja por imposições
sociais ou religiosas. Quantas pessoas hoje vivem oprimida pelo peso da lei? E
quantas não são oprimidas em nome de Deus?
Deus!
Em nossa sociedade pluralista Deus tem várias faces e sentidos, não se pode
achar que a Definição Judaico-Cristã de Deus, um Deus metafisico, distante e
muitas vezes opressor, seja o conceito presente na mente de todo. E acaba-se
por esquecer que Deus se fez carne, se fez humano, assumiu a debilidade própria
do Ser Humano. A humanização do ser humano, por mais que pareça algo
redundante, faz-se necessário para que consiga compreender esse processo ético
apresentado por Jesus Cristo, Ele sendo Deus, se encarnou para que pudesse
fazer-se crível, e possível a todo ser humano seguir aquilo que ele ensinasse.
Jesus
inicia o seu mistério em um lugar de desconcerto, como toda a sua vida. O
anuncio do Reino se inicia na Galileia, um povo marginalizado, para onde
ninguém olhava e nem queria pensar. E do meio dos pobres e excluídos que Cristo
inicia a sua pregação. Estar entre os pobres e excluídos, gera credibilidade no
anuncio de Cristo por não haver contradição entre a sua pregação e a sua vida.
Ponto que vemos faltar na maioria das pessoas que falam de Cristo hoje, é pregar
aquilo que não vivem. E pode se destacar hoje a figura do Papa Francisco, que
vive aquilo que prega, por isso suas palavras são tão desconcertantes para a
sociedade e para a Igreja. Francisco não tem medo de manchar a sua reputação
com os que ditam as normas, tem em vista somente a reforma evangélica da
Igreja.
Porém,
muitos se anulam para construir fama para o além tumulo. Muitos se perguntam sobre
o que será falado de si após a sua morte, isso vai sendo definido ao longo de
nossa vida, mais o eixo principal vai colocar Castillo é se a pessoa foi mais
voltada para si ou voltada para o próximo. Um questionamento profundo que traz
na obra é: O que é fazer o Bem?, esse é um dos pontos nefrálgicos da
obra e também de toda a ética. Muitas pessoas acreditam que fazem o bem, mesmo
o bem sendo algo mal para o próximo, muitos hoje creem que o fascismo seja um
bem para sociedade. O Bem e o Mal é definido pelos poderosos do mundo, que
muitas vezes desprezam o valor da vida.
A
ética de Cristo se funda na vida, na vida plena, “Eu vim para que tenham
vida, e a tenham em abundancia”(cf. Jo 10,10) e Jesus vai colocar a
vida em primeiro lugar, antes de tudo até mesmo da religião. A ética de Cristo
está fundada em fazer o bem, promover a felicidade e a compreensão. É
necessário que seja formada em seus seguidores essa ética para que ela se
desenvolva nos dias atuais. Deve-se tomar muito cuidado quando a lei está acima
da pessoa, quando a norma gera a marginalidade da pessoa, quantas vezes
inúmeras pessoas foram marginalizadas e excluídas de comunidades cristãs por
terem dado um basta em matrimônios de faixada, onde só haviam dor e sofrimento,
mas para muitos importa a aparência opressora do que a vida e a liberdade. O
Papa Francisco com os dois sínodos sobre a Família, algumas reformas no Código
de Direito Canônico vem tirando pesados fardos que foram impostos por fariseus
modernos nas costas do povo. Que não se faça como os fariseus e os escribas
denunciados por Jesus, “Amarraram fardos pesados e insuportáveis e os pões
aos ombros dos homens, mas eles mesmos não querem movê-los nem sequer com um
dedo” (Cf. Mt 23,4) e Jesus ainda prossegue “Aí de vós, escribas e
fariseus hipócritas! Fechais aos outros o reino dos Céus, mas vós mesmo não
entrais e nem deixai entrar aqueles que o desejam”(Cf. Mt23,13) devemos
lembrar da fala de Jesus “Tomai sobre vós o meu julgo e aprendei de mim,
porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vós, pois
meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Cf. Mt.11,29-30)
Chama
a atenção na obra que nos três últimos capítulos Castillo vai colocar Jesus
diante daquele que mais dificultam no desenvolvimento do Reino, são eles: o
Dinheiro; Poder e o Puritanismo. Imediatamente um dos versículos que vem a
nossa mente é: “Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro”(Cf.Mt 6,24) em
um mundo capitalista soa como uma loucura essa perícope. Vive-se a ilusão que
todo os problemas do mundo giram em torno de valores, e que com o dinheiro
pudesse resolver tudo, tudo isso caí por terra quando um simples vírus desmonta
toda uma cadeia de poder, e rios e mais rios de dinheiro falham no combate, e
vidas são substituídas por poder econômico, melhor que morrão do que quebra a
economia dos poderosos. Certamente essa não seriam as atitudes de Cristo, já
que uma vida vale mais do que qualquer coisa.
O
Evangelho tem um força em si próprio, força essa que nenhum poder no mundo pode
conter, se a sociedade assume os valores evangélicos e sua radicalidade todos
os poderes do mundo caem, pois estão fundamentados na logica do dinheiro e do
desejo de poder. Não se pode governar quem exclui essas duas bases, caí se a
lógica do poder.
O
Puritanismo é um fenômeno que vem crescendo e se desenvolvendo na sociedade,
aparentemente inofensivo que parece esta relacionado somente ao indivíduo, mas
que se alastra e se funde ao poder, principalmente a Direita política, que vem
tendo um ascensão em escala global, onde a defesa dos Bons Costumes, sobrepõe a
justiça.
A
obra de José M. Castillo é questionadora, crítica e tira da zona de conforto,
para muitos seria digna do Index Librorum Prohibitorum, justamente por
questionar praticas e atitudes tão presentes no meios eclesiásticos quanto na
sociedade. Faz-se necessário a desconstrução do que entendemos por ética para
que possamos construí-la fundada no Evangelho e olhando a cada indivíduo, para
proporcionar-lhes vida plena.
Autor: Adriano da Silva Oliveira. Aluno do Curso de Teologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção
Autor: Adriano da Silva Oliveira. Aluno do Curso de Teologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção
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