A REFORMA NA INGLATERRA

Victor Pereira Mascarenhas


A partir da Reforma Anglicana, a vida eclesiástica subordinou-se aos interesses do Estado, além da separação com Roma. Essa passou ser a realidade da Igreja inglesa com as decisões de Henrique VIII. Uma Igreja onde o papa já não tinha mais prestígio e lugar para o seu governo, devido as questões pessoais e egoístas daquele que governava o reino inglês. Não era uma ideia de reforma como a protestante, mas, um verdadeiro “cisma” na Igreja por parte dos ingleses.

A Reforma Anglicana não é uma novidade na Europa, visto que, desde a Idade Média já se falava de reformas. Há a questão da cristandade e a própria Igreja; a aliança do poder temporal e poder espiritual; e uma nova concepção de sociedade, economia e política com o feudalismo (civil) e o monarquismo (espiritual). A Reforma precisa acontecer nesses dois poderes, devido aos problemas de simonia, nepotismo e concubinato. Os problemas na Igreja ganham forças devido a ignorância religiosa sustentada pelos problemas morais.

O papado é a figura central para entender o conceito de reforma, inclusive a anglicana. Há uma decadência do prestígio papal, devido a questão da relação com o poder civil, o exílio de Avion, o cisma do Ocidente e a Reforma Protestante como fruto desse colapso da Cristandade. Os problemas internos da Igreja dão oportunidades às forças exteriores para as revoluções e cismas religiosos e políticos.

Foi a Reforma Protestante que revelou em toda a sua amplitude e profundidade a crise da vida religiosa e a necessidade de satisfazer às demandas de mudança. Porém, todo o mundo cristão, de fato, levanta críticas à condição em que está a vida religiosa. É este contexto degradado moralmente, os levantes da época e com os anseios reformistas, que abriu as portas para que os reis reivindicassem falsos direitos sobre a Igreja e mudanças religiosas com objetivos políticos.

Dados esses primeiros passos na Europa, chega a vez da Igreja inglesa. A problemática inicial que desencadeou o “cisma”, fora o problema do divórcio de Henrique VIII de Catarina de Aragão. No entanto, é preciso considerar uma evolução política no contexto histórico-social da Inglaterra. O problema do divórcio só despertou a tensão que existia entre Inglaterra e Roma, levando à ruptura de 1534, com o Ato de Supremacia, rejeitando o primado e autoridade papal, transferindo tais poderes ao rei. Paralelo a realidade inglesa, um ano antes, João Calvino na França, começa a dar os primeiros passos para uma reforma mais assídua do protestantismo com campanha difamatória da Igreja através dos seus escritos.

O Ato de Supremacia é a demonstração de um governo absolutista, que quer impor o próprio poder sobre todos os poderes feudais concorrentes ou inferiores, assim como a Igreja que possui uma força, inclusive financeira. O anticlericalismo, característica principal da cristandade inglesa deixa isso mais claro, a aversão ao fiscalismo do clero e da Igreja, pagar taxas e décimas, e o fiscalismo papal que subtrai da nação somas de dinheiro, que, no período do exílio avinhonense, financiava a guerra da França contra Inglaterra.

A situação religiosa não contribuía muito para que a situação entre a Inglaterra e Roma fosse diferente. O baixo clero com sua ignorância, concubinato, pouco empenho pastoral, prejudicava a possibilidade de se ter uma força maior para que a separação não ocorresse. Apesar deste contexto do clero e da má divisão de renda dos religiosos que estavam nos mosteiros espalhados no território inglês, alguns dirigiam paróquias e o povo era sinceramente religioso.

Essa realidade presente na Igreja se arrastava por bastante tempo na Idade Média. O problema da investidura eclesiástica, financeiro e de indulgências, a relação complicada de simonia e exploração dos mais pobres. Toda uma realidade configurada no dinheiro, além do nepotismo e concubinato no clero. O Concílio de Trento foi uma reforma tardia. Sendo assim, Lutero rompe com a Tradição e o Magistério, além de que queria que freasse a autoridade do Papa. Lutero gostaria da reforma, mas, por influências políticas decidiu pela separação, abrindo as portas para outras separações, como a inglesa.

A situação cultural da Inglaterra, no século XVI, foi influenciada pelo humanismo cristão, com a presença de grandes nomes como Colet, Fisher, Moro, Erasmo. Entretanto, nas universidades, prevalece a herança teológica de Duns Escoto e o nominalismo de Guilherme de Ockham. Alguns intelectuais da época acreditavam que para a reforma dar certo, era preciso mudar os métodos e costumes religiosos e institucionais do clero e do povo.

O nome de destaque no reino inglês é o de Tomás Moro que faz uma brilhante carreira na Câmara dos Comuns e como chanceler. O rei pede a Moro que examine a questão da dissolução do seu casamento com Catarina de Aragão, na esperança que Tomás Moro fosse conivente e defendesse sua causa. Entretanto, ele rejeita a tese do divórcio, visto que a ruptura com Roma era inevitável, prefere pedir demissão e não participa da cerimônia de coroação da nova rainha.

Moro refletindo os problemas presentes, fala do avanço dos turcos na Europa para destacar o problema do abandono da religião cristã (Papa Paulo III depois de Clemente VII fala de convocar uma cruzada devido a influência turca). Este avanço fez com que muitas pessoas tivessem medo de perder seus bens efêmeros e o conforto, então assinaram o Ato de Sucessão e o Ato de Supremacia, que davam o reconhecimento do rei como chefe supremo da Igreja inglesa.

O sacerdote John Fisher, colabora com o rei Henrique VIII para afastar do reino o perigo do luteranismo, que se espalhava pela Inglaterra devido a leitura clandestina vinda da Alemanha. Fisher declara o casamento do soberano com Catarina Aragão indissolúvel, reafirmando que nenhuma autoridade pode dissolvê-lo. De todos os bispos ingleses, somente Fisher se põe contra ao Ato de Supremacia imposto à Igreja e ao país. Fisher tenta alertar o parlamento de que a política cesaropapista do rei é para obter a anulação do casamento e eliminar a autoridade do papa.

Henrique VIII, segundo filho de Henrique VII, se torna rei em 1509 com a morte de seu irmão Artur. A causa imediata do cisma provocado pelo rei da Inglaterra com Roma é o desejo de romper com sua legítima esposa para garantir um herdeiro do trono. Ele sustenta a tese de que não há validade do próprio casamento por Catarina de Aragão anteriormente ter sido esposa de seu irmão mais velho. Por isso, ele deseja que seu matrimônio seja considerado inexistente, tanto pela continuação no trono através da prole, mas também por ter se apaixonado por Ana Bolena, uma dama da corte.

A ação da Igreja se dá com o Papa Clemente VII, que concede ao rei a dispensa pela afinidade de primeiro grau colateral para tornar Ana Bolena sua esposa, no caso de declaração de nulidade do primeiro casamento, fazendo com que Henrique VIII admita o poder papal de dispensa, ao mesmo tempo que o rei procura negá-lo. O papa se mantém firme na decisão de não ceder aos desejos errôneos do rei. No entanto, entre idas e vindas, ele consegue se divorciar – sem a autoridade papal – de Catarina de Aragão e dar o lugar ao seu lado no trono a Ana Bolena.

Na data de 10 de maio de 1532, o rei pede aos bispos uma declaração de renúncia ao poder legislativo e à prerrogativa de julgar os hereges. Dias depois, os bispos com medo de irritar o rei, decidem apresentar um Ato de submissão às exigências reais. Assim, pela primeira vez na história da Igreja, colocam um leigo à frente do poder espiritual, renegando a jurisdição do papa.

Em 11 de julho de 1533, o Papa Clemente VII, excomungou o rei, concedendo a ele um prazo para afastar Ana Bolena e chamar Catarina de Aragão de volta para o Palácio. No ano seguinte, o papa declara válido o matrimônio entre Henrique e Catarina, anulando o realizado com Ana. E, dada situação e com a ajuda de Cromwell conduz Henrique para a ruptura definitiva.

O Parlamento inglês, no dia 03 de novembro de 1534, pressionado por Henrique VIII, aprova o Ato de Supremacia, pelo qual o rei é declarado o chefe supremo da Igreja na Inglaterra, sem qualquer restrição, seja em matéria doutrinária ou disciplinar. Isso fez com que os bispos, renunciassem às bulas papais de nomeação e recebessem o documento de nomeação real, como delegados do rei. Entretanto, houve uma reação popular, o povo pedia a restauração da supremacia pontifícia e a repressão à heresia, porém, não obteve hesito.

Henrique VIII morreu em 1547, deixando uma Inglaterra com fé católica, mas, separada da comunhão com a Igreja de Roma, tendo como chefe supremo o rei. Deixava um herdeiro, Eduardo VI, que fora educado na fé protestante, mas que reinou por pouco tempo. Suas sucessões causaram grandes mudanças, Isabel I desde o começo quis introduzir no país uma organização protestante (organização religiosa elisabetana). A partir de 1570, há uma dupla evolução importante para a história posterior da Igreja na Inglaterra: a afirmação do puritanismo, com uma radicalização da Reforma em sentido protestante, presbiteriano, antiepiscopal; e uma gradual retomada do catolicismo com o retorno à Inglaterra de sacerdotes e religiosos.

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