Resenha - A Idade Moderna - Guido Zagheni
A Idade Moderna - Guido Zagheni
Romulo
Freire
A ideia de reforma é conatural
a vida do cristão Rm 12, 2 “Transformai-vos renovando a vossa mente”. Ela faz
referência a várias aspirações como a reforma pessoal, espiritual, ascética,
comunitária, escatológica, milenarista e monacal. A ideia de reforma remete a
uma regra ou a um estado anterior que no presente está deformado, por reforma
se entende um retorno ao estado inicial, citando Diego Laines no Concílio de
Trento.
As Reformas Protestantes e
Católica tem como pano de fundo essas aspirações e tentativas e devem ser
vistas pela ótica de uma grande impaciência de muitas ilusões e desilusões.
Nesse ambiente social, a gênese daquilo que vai se tornar o Estado Moderno são
os problemas que existem com a aliança entre o poder espiritual com o poder
temporal. A Igreja é acompanhada internamente por três problemas medievais: a
simonia, o nepotismo e o concubinato.
Para Lutero, que a princípio
anseia por uma reforma interna da Igreja e vai se tornar o protagonista que dá
início a Reforma Protestante, a ideia de uma reforma está associada ao problema
da catequese, a ignorância religiosa é muito grande, porque há um
desconhecimento das fontes da fé por parte da maioria dos fiéis e também de
membros da hierarquia, sendo a ignorância sustentada por problemas morais e
disciplinares muito grandes. A partir do movimento de 1517 em que Lutero
publica as 95 teses sobre as indulgências e ao longo do séc. XVI, a Reforma
Protestante acontece em vários países, por outro lado diante dos problemas
disciplinares, doutrinais e pastorais da Igreja, leva-se a convocação do
Concílio de Trento.
Será na Alemanha em
Winttenberg, que o alemão Lutero irá passar por uma influência psicológica,
mística, espiritual e teológica que vai levar aos princípios da reforma que são
3: SOLA FIDE – só a fé; SOLA GRATIA – só a graça; SOLA SCRIPTURA – só a
escritura.
Pela interpretação de Lutero,
seria dever do papa pregar de maneira diferente as indulgências e quando são
afixadas e publicadas as suas teses, Lutero achava que o papa iria disciplinar
o Bispo Alberto, porém não foi assim que aconteceu, pois Alberto era um dos
príncipes influentes e as teses de Lutero viraram um contraponto político e
teológico porque a partir das teses de Lutero, as iniciativas vão esbarrar no
poder papal, na teologia dos sacramentos e na constituição da própria Igreja,
problema jurídico, eclesiológico e pastoral. Assim, Lutero começa a perceber
que é preciso romper com Roma, porque não é vista por ele como uma Igreja
cristã, pensando que o papa pudesse ser o anti-Cristo, se colocando contra o
Magistério da Igreja, demonstrando que as Escrituras possuem o primado da
autoridade e sua teologia está acima da obediência.
Outro caminho da Reforma
Protestante se deu na França com Calvino, que em 1533 ele se denomina
protestante, deixa Paris por conta de perseguição dos católicos, lançando uma
propaganda difamatória contra a Igreja com financiamento, influenciando os
países de língua francesa pela religião calvinista. Acaba se refugiando na
Suiça, na Basiléia e depois em Genebra por conta do humanismo bíblico do
Renascimento.
A Igreja da França está
influenciada e sujeita ao poder do rei, que vai limitar a jurisdição da cúria
romana sobre a Igreja da França a respeito da eleição dos bispos, dos abades, a
isenção dos impostos e a autonomia e hierarquia dos próprios tribunais. Com
isso, a Igreja vai a falência com o confisco dos bens, por conta da falta de
uma hierarquia episcopal, falta de unidade e organização, deixando a Igreja
subordinada ao parlamento de Paris, fazendo com que problemas políticos e religiosos
criem um ambiente favorável para a reforma protestante na França.
As ideias luteranas como se
espalham pela Europa a partir de 1520, chegam na França em 1521, embora a
Universidade de Sorbonne acabe condenando as teses de Lutero, mesmo assim suas
ideias acabam ganhando espaço nos círculos humanistas.
Enquanto Lutero parte de si
mesmo, do homem e da consciência de não se salvar, Calvino parte de Deus em sua
glória no plano de salvação, tendo assim uma inversão no método teológico entre
Lutero e Calvino. A difusão do calvinismo ganha espaço após a morte de Lutero
em 1546, tendo um esfriamento das ideias luteranas pela Europa, assim Calvino
com apoio político e com a crise da Igreja da época, a reforma ganha dimensão
internacional.
A Reforma Anglicana se deu,
devido à perda de prestígio do papado no reino inglês, mesmo antes das
circunstâncias envolvendo o rei Henrique VIII. Não se trata de uma exigência
por reforma da Igreja, mas sim por um cisma, uma divisão, onde há uma Igreja em
Roma e outra na Inglaterra, que por sinal adquiriu grande repercussão.
O problema do divórcio
envolvendo o rei Henrique VIII e Catarina de Aragão foi apenas um elemento
desencadeador do cisma anglicano, radicalizando uma tensão já existente entre
Inglaterra e Roma, enquadrado numa evolução política muito mais complexa e
intrincada, levando a ruptura de 1534, com o Ato de supremacia, que sancionou a rejeição do primado e da
autoridade papal e a transferência de todos os poderes para o rei. O Ato de supremacia é uma demonstração de
força de um absolutismo crescente que quer impor o próprio poder sobre todos os
poderes feudais concorrentes ou inferiores e pela Igreja deter uma grande
força, entra na mira do despotismo absolutista.
O anticlericalismo interno devido o fiscalismo do clero e da Igreja,
a cobrança de taxas para os ricos burgueses, da pequena nobreza que alugam
terras eclesiásticas e desejam tornar-se proprietários, a hostilidade quanto a
imunidade do clero, a qual se junta a corrupção e a complexidade dos tribunais
eclesiásticos. O anticlericalismo externo
contra o papa, sua jurisdição sobre a Igreja inglesa, do fiscalismo papal
subtraindo grandes somas de dinheiro, além das causas do tribunal considerado
estrangeiro.
A Igreja, sobretudo o alto
clero da Inglaterra não está em condição de seguir uma linha própria,
independente da política do rei, por estar ligada estreitamente com a coroa. As
figuras de Fisher, Colet e Moro que fazem parte do círculo de humanistas
cristãos do séc. XVI, desejam reformar gradualmente a Igreja, sabendo que para
realizar essa reforma, é necessário influenciar os ministros de Deus,
independente do grau que eles ocupam na hierarquia da Igreja. O povo, apesar
dos defeitos característicos da época, em seu conjunto é sinceramente
religioso.
De todos os seis filhos de
Henrique VIII com Catarina de Aragão, duas mulheres e quatro homens, só restou
Maria Tudor, todos morreram depressa e aí Catarina já com 40 anos perde a
esperança de dar a Henrique um herdeiro masculino.
Quanto ao rei Henrique VIII, a
causa imediata da ruptura com Roma é o desejo do soberano de livrar-se da sua
legítima esposa para garantir um herdeiro do trono, reportando- se ao livro do
Levítico para sustentar a não validade do próprio casamento com Catarina de
Aragão, porque esta casara-se anteriormente com seu irmão mais velho Artur, que
morreu aos 14 anos, desejando que o seu matrimônio seja inexistente,
utilizando-se de falsos argumentos, mas que na realidade deseja a dissolução
por ter se apaixonado por uma dama da corte, Ana Bolena.
Clemente VII nomeia os
cardeais Campeggio e Wolsey como legados com plenos poderes para constituir um
tribunal que dura uns dois meses, quando o papa avoca a si a questão, tal como
exigia Catarina, mesmo ficando exposto a uma forte pressão, o papa não arreda o
pé, contrariando Henrique VIII.
Wolsey perde o cargo de lorde
chanceler, pois é acusado de ser representante de um poder estrangeiro na
Inglaterra, quando chamado a comparecer perante o conselho da Coroa, morre
durante a viagem. O rei Henrique VIII acusa o clero de conivência com as
acusações de ilegalidades cometidas pelo lorder chanceler Wolsey por ter
exercido a própria jurisdição sem respeito aos direitos da coroa, acusações
essas, absurdas e desprovidas de fundamento. O clero pede perdão ao soberano
por ter aceito a delegação de Wolsey e deposita espontaneamente 100.000
esterlinas no caixa real, ao mesmo tempo que Henrique VIII consegue que o
Parlamento e o clero declarem-no protetor e chefe supremo da Igreja inglesa; a
ele são confiadas a cura das almas e a defesa dos privilégios e da liberdade da
Igreja não derrogados pelo poder real e pelas leis estatais.
Com o afastamento de Catarina
da corte, Henrique VIII celebra secretamente as núpcias com Ana Bolenha,
inclusive porque ela está esperando um herdeiro. Diante de um processo absurdo,
o matrimônio de Henrique com Catarina é declarado nulo, inclusive declarando
válido o matrimônio entre Henrique e Ana, que é coroada rainha e no mesmo ano
nasce a sua filha Isabel I. Desse modo o Papa Clemente VII excomunga Henrique
VIII, dando um prazo para afastar Ana e trazer de volta Catarina, declarando
válido em consistório o matrimônio entre Henrique e Catarina, anulando o
matrimônio realizado com Ana.
Com esse quadro, só restava
levar a termo o cisma da Igreja inglesa com o Ato de supremacia, em que o rei é o chefe supremo da Igreja inglesa
sem restrição em matéria de doutrina e disciplinar, prevendo o juramento de
todos os súditos, mas que em caso de recusa, seria considerado crime de lesa
majestade. Os bispos um a um, renunciam às bulas papais de nomeação e recebem o
documento de nomeação real, como delegados do rei em 1535.
Muitos foram os religiosos
perseguidos, presos e mortos por permanecerem fiéis ao papa em oposição ao
nacionalismo real, assim como a destruição dos mosteiros e conventos, tanto por
razões políticas, econômicas como o saque e a posse das propriedades. Aos
poucos o soberano vai se abrindo às doutrinas protestantes, introduz a Bíblia
em inglês na liturgia, permite a eleição de bispos protestantes em três
dioceses, com algumas ressalvas permite elementos do protestantismo, sem deixar
perturbar seus projetos absolutistas, só que mantendo os sacramentos do crisma,
unção dos enfermos, ordem e matrimônio.
O rei passa a combater em duas
frentes: contra os católicos que rejeitam a sua supremacia sobre a Igreja, e
que por isso eram enforcados e esquartejados, e contra os protestantes, que
eram mandados para a fogueira como hereges, com muitas vítimas em ambos os
lados.
Henrique VIII morreu no dia 28
de janeiro de 1547, deixando uma Inglaterra com fé católica mas separada da
comunhão com a Igreja de Roma, deixando um herdeiro masculino, Eduardo VI, um
menino de 9 anos educado na fé protestante, que foi rei por apenas 6 anos
(1547-1553), sob a tutela do tio.
Em seguida Maria Tudor,
católica, filha de Henrique VIII com Catarina de Aragão reinou de 1553 a 1558,
ocorrendo a “terceira revolução religiosa”, com a restauração do primado papal
e da ortodoxia católica. No início do seu reinado, teve uma certa moderação em
relação aos protestantes, mas depois da rebelião de Thomas Wyatt, passa a
governar com mais severidade, perseguindo os protestantes. Dos poucos anos de
seu reinado, se deu por uma restauração legal, mas sem os meios e as pessoas
para iniciar uma reforma espiritualmente renovadora.
Elisabete I assume o reinado
(1558-1603), de educação protestante, esforça para introduzir no país uma organização
protestante, com um ideal de um Estado unificado e estável, a base de um
protestantismo capaz de garantir a uniformidade do culto e uma ligação entre
todas as tendências e correntes.
A Reforma na Inglaterra no
mais amplo movimento monárquico tardo medieval, apossou-se da jurisdição
eclesiástica e submeteu a Igreja ao próprio absolutismo.
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