Resenha - Viver em Deus sem Deus ? - Roger Lenaers


VIVER EM DEUS SEM DEUS?
Victor Benincasa Borejo
Atualmente, com o advento da modernidade, reflete-se muito como deve-se encarar e ser a religião cristã, em um contexto moderno, em que há sempre um alto uso da razão. Um grande expoente nessa reflexão é Roger Lenaers, com seu livro “Viver em Deus sem Deus?”. Tal livro é composto por quinze capítulos em que o autor faz a tentativa de descrever como a modernidade encara o cristianismo.
O autor inicia sua reflexão expondo o contexto histórico do cristianismo pré-moderno, para adentrar no surgimento da modernidade. O cristão do passado vivia a ideia de que a ordem de todas as coisas dependia do todo-poderoso, seria um Deus único situado nas alturas e em um mundo perfeito, que rege e governa a tudo e a todos.
Porém, no século XVIII, entrando na modernidade, surge o Iluminismo. Movimento que tem traços do renascimento, dando origem as ciências modernas e o humanismo, dando respostas a algumas perguntas que não se tinha respostas na pré-modernidade. A modernidade faz com que a Igreja perca influência na sociedade, o humanismo – que se preocupa com o ser humano, seus direitos, liberdade e igualdade – é grande influenciador dessa queda.
Com essas mudanças dadas pelo Iluminismo, outro o campo da ética também se modifica. Ocorre a ruptura com o sagrado, como já vimos, mas agora se faz uma ética sem Deus, voltada para o ser humano e baseada em pensadores modernos. É fato que essa nova ética integra toda a cultura, sendo fruto do humanismo cristão. Por isso, existe a necessidade de uma ética de fé, que possua outro fundamento que a tradicional e inspirada no evangelho, mas que reconheça francamente a autonomia do ser humano e do cosmo.
Dessa forma, a ética pré-moderna é a ética da lei, é necessário que ela passe por intermediários para que chegue a nós, porém sempre terá como plano de fundo as próprias sensibilidade, preconceitos e limitações do mediador. Ela também, sempre apresentará uma falha em que pode se transgredir a lei, sem pagar sansões dela, além de precisar ser genérica, para abarcar todas as situações. Conclui-se dessas afirmações, que a ética pré-moderna está longe do que é a ética moderna, em que a dignidade e os direitos fundamentais do ser humanos são absolutos, o seu grande problema é absolutizar as suas leis.
Assim, a ética da fé moderna, também proporá leis, que poderão ser transgredidas, mas fluem de margens distintas. Ela não irá só colocar regras, mas deve iluminar a tomada de consciência, para que as ações sejam tomadas de acordo com um referencial concreto que seja o amor. Essa nova ética deve ser capaz de corrigir, em várias áreas, a ética pré-modernas. Por isso, a passagem da ética da lei, para a do amor terá consequências em que a lei e suas condenações não conseguirem legitimar-se diante da razão crente e no momento que não levarem em conta o papel decisivo do amor.
O autor continuando sua análise, após afirmar o que vimos acima sobre a ética da modernidade, começa a investigar sobre alguns atos próprios da Igreja. Inicia pelo matrimonio, afirmando que uma moral machista não pode mais ser sustentada. Afirma que a atual cultura em que vivemos reconhecem os novos casamentos de aspecto civil, a Igreja estaria indo contra esse caminho, por vaidade.
Em seguida, autor analisa alguns atos que os cristãos pré-modernos faziam (causada propriamente pela ética da lei), e chega à conclusão que como o povo de Israel, eles também estão adorando a outros deuses, e propõe a volta ao inicio do cristianismo primitivo, em que todos vendiam seus bens e colocavam tudo em comum para serem distribuídos segundo a necessidade de cada um.
Por isso, o autor destaca a tensão que existe entre obediência e liberdade, o perigo que existe se uma sobressair sobre a outra. É necessário que exista um equilíbrio entre obediência e liberdade, visto que, a modernidade, não aceita mais a argumentação do que é divino. A obediência teria cumprimento, no momento que os preceitos forem aceitos sem nenhuma objeção, com liberdade.
Dessa forma, destaca o autor, que há uma discrepância entre liberdade e obediência dentro da Igreja católica, apontando para grande causador disso, o magistério e sua hierarquia impedindo o diálogo. Por isso, a liberdade tem um papel fundamental na horizontalidade, ela possui como que um ouvido que traz para perto de si a voz de Deus, que é capaz de mostrar para o ouvinte o verdadeiro, bom e belo.
Por isso, o autor, critica a influência negativa que a hierarquia da Igreja, principalmente na figura do papa e dos bispos, trouxe para os cristãos. Impondo-lhes lei, em que há uma obediência cega, sem a liberdade devida.
Em seguida, o autor discorre brevemente sobre o tema da eutanásia, afirmando que já é algo resolvido e fechado para a Igreja, sendo ela proibida. Porem, o autor se questiona até que ponto o Estado deve manter essa pessoa que vive em aparelhos, sendo que ela não tem mais saída, do que esperar a morte.
Com isso, o autor trata sobre a separação da ciência e da fé, dada pela modernidade e pelo Iluminismo. E dessa forma, Deus foi desaparecendo do discurso científico, e cada vez mais se discutia o que a Igreja afirmava de Deus, como a criação; que para muitos cientistas a crença em um criador é algo arcaico, trazendo consequência para a religião. De fato, a modernidade quer retirar Deus do debate científico, pois qualquer atividade criadora divina colocaria a autonomia humana em perigo. Assim, a partir da evolução tudo da criação está em constante desenvolvimento e que o homem faz parte de tudo isso, por isso o universo tende para uma humanização.
O autor, afirma ainda, que com o advento da modernidade questiona-se a encarnação do Verbo, o que gera um conflito de natureza. No pensamento pré-moderno se tinha um Deus poderoso que era castigador, impositor de leis. Com sua queda, por meio da modernidade, cai as suas leis, tornando Deus, alguém mais acessível ao povo, um Deus que ama e perdoa.
Outros pontos afetados pelo advento da modernidade é a relação entre o crente e a divindade por meio da oração e o sacrifício, a perca da espiritualidade, por meio das igrejas, música e artes. Outro ponto é a liturgia, o cuidado que se deve ter é perceber qual imagem de Deus se apresenta na liturgia a partir dos protocolos por ela assumidas. Por isso, a liturgia deve ser um meio que ligue o ser humano com o Transcendente e dê a abertura para o mais profundo de si mesmo e encontre sentido. Por isso, os sacramentos não devem ser apenas sinais, mas rituais que causem um efeito e impacto existencial nas pessoas. É preciso promover uma espiritualidade que unifica e que alcance a modernidade e proporcione uma mesma experiência de Deus.
Em seguida, o autor trata do tema da bíblia, se ela contém ou não a palavra de Deus. Então questiona-se se a bíblia é a palavra de Deus, porque a Igreja durante os anos dificultou o acesso a ela. Em seguida afirma que ela primeiro fora escrito em latim, que o povo não pode se encontrar com Deus por meio dela, a não ser inserido na liturgia, que nem se quer entendiam, porque estava em latim, além das várias versões protestantes da palavra; o que acaba acarretando um medo do fiel católico pela palavra, não se aplicando a sua leitura.
O Autor, ainda se questiona, quanto a inspiração divina da palavra, como ela pode ser inspirada (se foram inspiradas no Grego e Hebraico) se passou por diversas traduções. Ele afirma que de fato, equiparar a bíblia, que fora escrita pelos homens, com a palavra divina é algo que necessita de provas, coloca, dessa forma o autor em cheque, a inspiração divina das sagradas escrituras. Por isso, para o autor que se pauta na ciência, a bíblia não passa na verdade da palavra humana.
Dessa forma, continuando sua reflexão, o autor meditará sobre os sacramentos, dando um enfoque principal na “santa missa”. Começa a sua análise, afirmando que o termo supre citado é somente utilizado por aqueles que são católicos, além de muitos considerarem uma falta muito grave a não participação da “santa missa”, maior que alguns pecados. E a partir disso, ele se pergunta como a missa e a eucaristia conquistaram tanta importância na vida do Cristão Católico.
Afirma que, sem a missa os cristãos morreriam, e que na “santa missa” acontece o ápice da vida de um cristão, a eucaristia, por sua vez, seria onde se realiza a comunhão com Cristo e uns com os outros. Porém, embasado nas escrituras, o autor procura provas disso.
Observando o Novo Testamento, tem-se claramente a ideia de que a eucaristia não tinha tanta importância, mas sim a fé, como entrega total do coração e perpassando os textos paulinos, sinóticos e tantos outros, não se encontra uma referência tão solene a eucaristia e a missa.
Em seguida, faz uma análise histórica, e afirma que a Eucaristia, se vivenciada como ápice da vida, levaria os frequentadores a frequentarem, também as missas semanais. Nesse interim ainda afirma, que a missa é um ritual religioso, e que ele é incapaz de elevar a mais alta realização da vida cristã, nem mesmo ser sua fonte.
Refletindo, em seguida, sobre os sacramentais, chamando-os de relativos, como que a benção os “recarregasse” de santidade e os apontassem para Deus (o cosmo é sagrado, porque fora criado por Deus). E afirma que os sacramentos e os sacramentais devem ter sua relevância e sua necessidade questionada.
Afirma, com isso, que para uma pessoa moderna, que possui a fé, o que realmente salva não é o batismo, e sim uma adesão firme e fiel a Cristo que leva a Deus, podendo muito bem se viver sem o batismo. O mesmo, dessa forma, vale para a “santa missa”, a eucaristia seria só um símbolo de um ritual vazio que leva a comoção e sensação estéticas. O que faz com que os sacramentos pareçam um ritual mágico.
Urge que, tratar os sacramentos de forma medieval, como algo que aponta a Deus, fez com que, na modernidade seu significado se torne nulo e apenas um ritual, é necessário, mais realismo para encarar qualquer sacramento, principalmente a “santa missa”, como auge da vida e experiencia cristã.
Quanto ao sacramento da eucaristia e da que se dá na santa missa o autor afirma que é preciso entender que qualquer presença, mesmo que simbólica, é real. O que houve na Última Ceia foi Jesus que viu a si mesmo no pão, e não uma mudança milagrosa. Olhar e ver o pão como Jesus viu é torná-lo presente de forma simbólico-real. É preciso olhar para a Eucaristia, o pão consagrado e ver Jesus como aquele que se doou por nós, se não, fica algo vazio. O que de fato importa é a nossa configuração pessoal e existencial a Jesus (não importando que forma ela se dá)
Por fim, o autor no final de seu livro, procura retomar aquilo que já fora tratado até o presente momento, e dar dicas de como viver um “Deus” na modernidade. De início ele propõe um de um Deus que permanece distante nas alturas, mantendo o que é essencial da fé. Para o autor o cristão do futuro dever ser alguém que pensa e age de maneira ateísta.
Isso tudo pode ser feito, segundo o autor, por causa do alto grau de desenvolvimento das ciências modernas, fazendo-se desnecessário buscar refúgio em um Deus (dessa forma, sua existência não é negada, mas sim esquecida), com isso quem toma lugar de Deus é a razão do homem.
Pode-se ver, portanto, a partir dessa análise do autor, que parece que o atue está mais próximo de Deus, quando tomado da consciência de sua autonomia, pois está liberto da concepção de um Deus pré-moderno. A religião, de fato, deve libertar o homem de seu egoísmo, tornando esse mais capaz de se relacionar com aquele que é seu próximo; permanecendo de fato aquilo que importa que é o essencial da religião: o amor.

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