Vaticano II: a luta pelo sentido - Resumo e análise da obra

Resumo da Obra

Massimo Faggioli, escreve essa obra sobre o Concílio Vaticano II transmitindo aparatos históricos sobre este evento com destaque no processo de desenvolvimento da sua recepção. Após ter passado mais de cinquenta anos do concílio, ele vê que muitos ainda não souberam entender o “espírito do concílio” e com isso diz que há uma demora na recepção. A obra se divide em seis partes, onde ele discute, respectivamente: o debate acerca do significado do Vaticano II, trabalhando sobre o alcance do mesmo, o peso pastoral e a doutrina dos documentos; depois fala da lógica e razões dos grupos que questionaram a legitimidade do concílio; os desdobramentos para além de Roma e da própria Igreja Católica, visando a questão do diálogo; relação da Igreja com o mundo, colocando em análise as duas principais correntes hermenêuticas do Concílio Vaticano II; depois ele se debruça sobre o período entre o Vaticano II e o Sínodo Extraordinário de 1985, onde fala bastante sobre o termo “Povo de Deus”; por fim coloca as “macroquestões” sobre o evento discutido.

Depois da eleição de Bento XVI, cresceu novamente um interesse com o debate sobre a hermenêutica do concílio, e a partir de então, Faggioli vê a importância de analisar os aspectos históricos e outros dados, devido uma “falsa” recepção do concílio, onde o seu espírito não é coloca em jogo e sem contar que no ano de 2005 poucos dos que participaram do Vaticano II e compreenderam suas dimensões, o novo caráter descoberto da “’catolicidade’ da Igreja católica como uma ‘Igreja mundial’”[1], estavam vivos, pois, dentro disso, o debate recebeu toda uma especificidade rica, dentro de toda sua dimensão pastoral e dogmática e cresce os números de pessoas com uma hermenêutica que foge disso. Diz Faggioli:

“Essa nova geração é potencialmente indiferente, desdenhosa e até hostil ao Vaticano II com base na apresentação politicamente orientada do ‘catolicismo do Vaticano II’, rotulado com demasiada frequência como ‘liberal’ e ‘condescendente’, senão pior”.[2]

Eis aqui um o primeiro passo a ser tomado, segundo o autor: fazer o debate do Concílio Vaticano II retomar às suas origens. Pois muitos pontos deixam claro que este novo caráter falado anteriormente não é invenção. Basta observar a participação dos bispos, que não eram apenas europeus, havia do mundo inteiro; é a “catolicidade” que ele fala. Sem contar que, desde o anuncio do concílio feito por João XXIII em 25 de Janeiro de 1959 e durante todo período de 1962 a 1965, que discutiram os textos bases, teve grande protagonismos os movimentos de renovação que vinham crescendo na Igreja anteriormente ao evento. Movimento bíblico, renovação litúrgica e renovação patrística que é famoso ressourcement. Sem esses dados, a reflexão não alcança sem verdadeiro aggiornamento.

Segundo o que apresenta o Faggioli, os principais personagens do debate sobre o concílio no primeiro período pós-concílio (1965-1980) foram: Yves Congar, Henri de Lubac, Joseph Ratzinger e Edward Schillebeecky. Também João Paulo II tratou pontos importantes sobre o ecumenismo e diálogo inter-religioso. Acrescentando outros teólogos importantes para o debate, ressalva um conflito que é discutido em toda sua obra. Com os debates sobre a Gaudium et Spes, se revela duas correntes: neoagostinianos (Daniélou, H. de Lubac, Ratzinger, von Balthasar), e os neotomistas (Chenu, Congar, Rahner, Lonergan, Schillebeecky). Em 1964 surge a revista Concilium, que marcava mais o pensamento dos neotomistas. Já em 1972, com uma visão mais agostiniana, nasce a Communio.

Desde o término do Concílio Vaticano II há essa discussão hermenêutica. E quando chegou na segunda fase pós-conciliar (1980-1990), um período de aplicação prática, a questão não muda e muitos continuam lutando para que não haja a separação do caráter pastoral com vigor doutrinal dos documentos e do espírito com a letra do concílio. Os que faziam essa separação, iam esquecendo cada vez mais da abertura para o mundo que João XXIII tanto desejava e, com isso, “parecia que o poder estava sendo recuperado pela cabeça da Igreja em Roma às custas do corpo da Igreja pelo mundo afora”[3]. No terceiro período (1990-2000) inicia a onda de estudo mais importante, e a respeito disso Massimo coloca três pontos: A produção da História do Vaticano II em cinco volumes por Giuseppe Alberigo; o princípio hermenêutico do concílio como “acontecimento”; e o entendimento da natureza do concílio como aggiornamento.

No primeiro capítulo, visto até aqui, de certa forma, o autor apresenta pontos que serão tratados em cada capítulo seguinte, como que um aparato geral. Já no segundo, desenvolve o pensamento a respeito das pessoas ou movimentos que colocaram em questionamento a legitimidade do Concílio Vaticano II. Existiram dois extremos na questão hermenêutica do concílio, como colocado acima, mas também se vê um debate quando o assunto é a legitimidade do concílio. Havia liberais que estavam desapontados com a demora em implantar as reformas pretendidas, e de outro lado tradicionais que viam este evento como sinônimo de caos na Igreja. Porém, Faggioli diz que isso precisa ser visto de forma correta. Ele coloca que havia uma minoria de teólogos conciliares que contestava a legitimidade do concílio. Não era todos os tradicionais, muito menos, uma quantidade acima da dos liberais, mas sim uma “minoria”.

O mundo inteiro buscava compreender o Espírito do concílio, para que as reformas conciliares pudessem acontecer. Yves Congar tinha uma posição, seguida pela maioria dos teólogos e historiadores, de que para recepção do concílio era preciso ter mais sensibilidade histórica e tempo para “digerir” o Vaticano II. Esse pensamento colocou muitas universidades em pesquisa, a fim de alcançar a tal compreensão. Aparecendo inclusive a opinião de Hans Küng de ser preciso voltar à consciência pública. Mas diante de toda essa busca e pesquisa, haviam opositores que, mesmo assim, defendiam que o concílio era uma ruptura na tradição. O principal nome foi Marcel Lefbvre, que motivou a extrema oposição que não apaziguaram nem com a preocupação de Paulo VI em buscar uma unanimidade moral na aprovação dos documentos.

Na ideia de muitos, o concílio deveria ser reduzido apenas à pastoral, o que levou à rejeição. Então, havia os neotradicionalistas que negavam a legitimidade do concílio, e os lefebvrienos que o via como um cisma e faziam oposição ao evento. E era a questão da “mudança da Igreja” o “verdadeiro inimigo da minoria do concílio”.[4] Romano Amerio fala do concílio como momento último do modernismo. Diziam também, que após Paulo VI promulgar os documentos conciliares ele se opôs à tradição, criando um cisma e por isso consideravam que Roma esta sede vacante desde então. Mas foi o papel de Marcel o mais famoso, ainda mais após criar a Sociedade de São Pio X em 1970, onde era desenvolvido esse pensamento de que a religião católica estava sendo mudada. Em síntese, eram opostos à colegialidade, à liberdade religiosa e a reforma litúrgica.

No capítulo terceiro, analisa os primeiros desdobramentos para “além de Roma”, vendo o vaticano como um começo, tal como Karl Rahner afirma: o começo do começo. Essa ideia, para Faggioli, é uma coluna hermenêutica conciliar. Além de ser um começo, foi um evento onde a participação já era “além de Roma”: havia mais de 180 observadores ecumênicos e alguns trabalharam como conselheiros teológicos. Aqui está, obviamente, a questão do ecumenismo, que em certo ponto de vista, é algo presente à substância da fé, e observando este dado essencial, para muitos observadores,

“a Igreja católica se tornou mais preparada para escutar as necessidades do ser humano contemporâneo e usou uma nova linguagem que mostrava uma evolução no catolicismo sem renunciar às características originais em termos de eclesiologia, sacramento e a preservação do depósito da fé”.[5]

Em seguida, Massimo cita algumas pessoas específicas que contribuíram para este aspecto, colocando que até mesmo os que não eram tão otimistas com o futuro do ecumenismo, afirmava que existe toda um caráter epocal no concílio que o fazia diferente, tal como George Lindbeck. Ademais, caminha para uma análise do concílio que chega até a América Latina. Com a frase inicial da Gaudium et Spes que fala da alegria e esperança, principalmente, dos pobres e aflitos, o olhar para o quadro que vivia a América, como por exemplo, no Brasil, com a ditadura de 1964, era preciso uma implementação mais coordenada e atenciosa do Vaticano II. E é com a assembleia de Medelín que, olhando para o concílio como começo de tudo, fala-se de uma nova teologia católica. Eles seguem dois critérios: a recepção fiel e a recepção criativa.

Na assembleia de Puebla se reafirma o concílio e trata bastante na matéria de eclesiologia, a ideia de Igreja como povo de Deus, que é partidária dos pobres. Entre os anos de 1968 e 1975, houve a formulação da teologia da libertação e junto com esse contexto das assembleias, gera outras teologias visando a libertação dos mais esquecidos, abandonados, descriminados. Entre os anos de 1971 e 72, então, surge a teologia feminista, e surge também a teologia negra. Essa nova teologia também chega a outros lugares como África, Ásia e Austrália. Nestas se destaca uma teologia de adaptação e inculturação. Essa última, substitui a teologia tradicional da salus animarum[6] e foi muito importante na África, com a reforma litúrgica. Na Ásia, o marco é o diálogo com outras religiões e o diálogo ecumênico, enquanto que na Austrália, fala-se do compromisso com a justiça social e a busca dos direitos humanos.

No capítulo quatro, Faggioli aprofunda o conflito entre neoagostinianos e neotomistas, principalmente na visão de “Igreja e o mundo”. Quanto esse é o tema, as duas tendências apresentam diferentes pontos de vista cristológico e eclesiológico. A recepção neoagostiniana vê a Igreja em uma situação de “rival” com o mundo, tal como afirma Avery Dulles, na seguinte citação que Faggioli apresenta: “[…] a tendência neoagostiniana vê a Igreja muito afastada de um mundo pecador, sendo a Igreja uma ilha de graça num mundo entregue ao pecado”.[7] E o principal nome que marca essa linha de pensamento, que segundo o autor, foi “além de um programa meramente conservador”[8], é Hans Urs von Balthasar, que via na eclesiologia Agostiniana uma solução para problemas como o donatismo e o montanismo, mas também como fundamental para a análise eclesiológica de Igreja e mundo.

Havia também Henri D. Lubac, que era cético para com o Vaticano II, principalmente em relação com a Gaudium et Spes. O autor fala que não se deve confundir a posição de Lubac com a de Lefebvre, pois ele considerava o concílio como real, porém defendia que o mesmo se “rendeu” ao mundo moderno, trazendo um desequilíbrio entre graça e natureza. Já Ratzinger era mais concordante com as coisas, porém o seu julgamento era mais possível de ser reforçado, ou seja, tinha mais peso, e seu principal apontamento é sobre a interpretação do concílio, o que se prova com a análise do motivo pelo qual julgou a Gaudium et Spes, a saber, por ela não ser tão clara, o que poderia permitir outras compreensões. Essa visão o fez crítico da teologia da libertação e da teologia política; era crítico a tudo que parecesse uma “modernidade” do concílio, sendo assim, a todos pensadores que apresentasse algum modernismo:

“A defesa que Ratzinger fazia do agostinianismo combinava, durante os anos em que formou uma dura opinião sobre o Vaticano II, com a impressão de que os defensores da teologia escolástica no concílio tinham logo se rendido a uma espécie de neomodernismo”[9].

Por outro lado, havia o grupo dos neotomistas, que era mais progressista e buscavam recuperar um tomismo reinterpretado para os tempos atuais; falavam de necessidade de uma abertura ao mundo. Tem como destaque, Yves Congar, Marie-Dominique Chenu e Edward Schillebeeckx. Baseado no pensamento do historiador Gerald, afirma que os neotomistas contribuíram com um “tomismo que defende o lugar da história e do pluralismo na teologia”[10]. Porém, Faggioli frisa o pensamento de Chenu, pois este, ao estudar São Tomás de Aquino, percebeu que ele fez uma ponte, a fim de trazer a filosofia de Aristóteles para sua época, com as devidas atualizações, e ainda, observou que ele sempre se manteve em diálogo com outros grandes pensadores de sua época que nem eram cristãos, como Avicena e Averróis. Com este dado, Chenu trabalhou na interpretação do concílio, principalmente na Gaudium et Spes, com a ideia de “sinais dos tempos”.

Já o neotomismo de Congar era uma visão da “necessidade de adotar antes a abordagem de Tomás do que suas conclusões”[11]. E ainda, diante de seu trabalho em tratar da Igreja como comunhão, implementou a eclesiologia tomista, trazendo consigo a certeza que toda crise pós-concílio que está enfrentando não era originária do Vaticano II. O que talvez encontrasse esclarecimento da visão de Rahner do concílio como “começo de um começo”. Pois para ele, conforme apresenta Giuseppe, somente com a virada da filosofia cosmocênctrica para uma filosofia transcendental antropocêntrica, seria possível perceber as abordagens conciliares. Preso a uma visão filosófica antiga, cria-se parte dos conflitos originadores da crise pós-conciliar. O que poderia ser amenizado com o Sínodo de 1985, porém foi enviado um questionário para dar diretrizes ao encontro, que era tendencioso, com pressuposições indutivas. O que deveria ser uma evolução na interpretação e aplicação do concílio, se tornou um marco da tentativa de “João Paulo II de orientar a recepção do Vaticano II na direção por ele desejada”[12]; é marco do início da rachadura entre diferentes interpretações.

Todo este contexto volta a parecer nos capítulos seguintes, dado que, com as novas pesquisas e estudos que vão se desenvolvendo nos períodos seguintes, novamente entra em jogo o conflito entre as interpretações. Se de um lado a grande pesquisa dirigida por Giuseppe Alberigo gerou como fruto a “História do Vaticano II” em cinco volumes, por outro lado, houve a eleição de Joseph Ratzinger, como Papa Bento XVI. Pois para Faggioli, com o discurso de 22 de dezembro de 2005, ficou evidente a hermenêutica da descontinuidade que ele seguia, sem contar que neste período cresceu o sentimento “anti-Vaticano”, que era diferente da posição dos lefebvrienos,[13] mas levava a um ceticismo. Essa ideia é desenvolvida no quinto capítulo, já no sexto ele apresenta aquilo que chama de “macroquestões” que surgiram em torno deste evento,

“já que em muitos ambientes eclesiais procedeu-se a um silencioso abandono do concilio e de seu espírito na pastoral, no ensino da teologia, na liturgia, no empenho ecumênico e macroecumênico”[14]

 

Faggioli coloca como primeira questão o conflito entre os pensamentos de ver o concílio como fim ou como começo da renovação. E ele expõe como a visão de fim é carregada de uma separação de letra e espírito do Vaticano, e por consequência, uma falta de análise eclesiológica que se volte para a sociedade e de uma pneumatologia adequada. Diferente da visão de Rahner, que via “como o começo de uma virada de renovação para o catolicismo”[15]. Não reconhecer isso é negar que o Espírito Santo estivesse movimentando a Igreja antes, durante e após o concílio. A visão eclesiológica na relação com o mundo, depende desta visão.

A segunda macroquestão trata da dinâmica dos documentos conciliares, que de alguma forma já era presente no primeiro problema colocado acima. E todo desenvolver gira no erro hermenêutico de separar a letra do espírito do concílio, pois os que fizeram isso e lutaram por uma interpretação apenas da letra, tentaram “bloquear” o desenvolver das reformas conciliares, alegando que fugia do que estava escrito nos documentos. Há, realmente, muita coisa ainda a se desenvolver sobre o concílio, que para O’Malley, depende de “reconhecer o estilo do Vaticano II” para que seja “possível identificar o espírito do concílio como expressão de orientações fundamentais que atravessam os documentos conciliares, […]”[16]. E Ratzinger, em 1985, falava já de alguns problemas hermenêuticos decorrentes dessa separação:

“[…] os seus documentos foram rapidamente soterrados sob uma pilha de publicações superficiais ou francamente inexatas. A leitura da letra dos documentos nos habilitará a descobrir o seu verdadeiro espírito[17].

A última questão sobre a mudança e a historicidade na Igreja e na teologia também segue o mesmo raciocínio anterior, a respeito da necessidade dessa união, pois a má compreensão deste dado, leva a visão do concílio como descontinuidade, sendo que, para Faggioli, é preciso identificar o concílio como um evento, um início, mas que não entra em descontinuidade com a história da Igreja, pelo contrário, ele faz o movimento de retornar às fontes da Tradição para poder reavivar aquilo que é essencial à fé cristã e foi se perdendo no meio de tantas tradições que sugiram no decorrer da história. Ademais, como não vai contra nenhum dos outros concílios, e nem contra o magistério da Igreja, é sim continuidade, porém num evento que é o início de uma renovação, afim de devolver à Igreja aquilo que lhe é substancial e foi trocado por coisas acidentais:

“Nessa nova visão, a relação entre o Vaticano II e a história do catolicismo não é apenas aquela que identifica um momento de virada do concílio, mas também que oferece uma visão mais dramática, mais centrada no acontecimento e aberta para a capacidade autocuradoa da Igreja de absorver brechas e lacunas e, enfim, para mudar”[18].

E mudar a Igreja, implica em devolver seu duplo movimento pertencente à sua origem, a saber, o ad intra e o ad extra. É preciso aceitar as mudanças interiores da Igreja que atingem diversos aspectos do clero, como a visão de hierarquia, em mudança para uma correta compreensão de colegialidade. Pois, com tais mudanças a Igreja olha para o mundo que sofre e é esquecido, o que voltou a ser o foco dos Sínodos Latino Americano, tanto de Medelín como de Puebla. É preciso voltar-se para o exterior, pois todos são membros do Corpo de Cristo.

Análise do Vaticano II a partir de Giuseppe Alberigo

Na primeira metade do século XX os grandes conflitos a nível mundial tinham trazidos “dramáticas dificuldades nas relações internacionais”. A brecha para um caminho mais individualista, onde a busca por “proteção” e a desconfiança em pessoas e grupos seria crescente, estava aberta. Mas surge uma preocupação entre as Igrejas nascidas da reforma protestante e também as Igrejas orientais ortodoxas, retiraram deste fato “um estímulo para procurar formas de ligação”. E de várias assembleias, originadas deste estímulo, surge a constituição do Conselho Ecumênico das Igrejas. [19]

Por outro lado, diante tantos problemas que ameaçam em alguns aspectos à fé cristã, a Igreja católica escolhe realizar um fechamento em si mesma, o que gerou um ambiente contrário ao diálogo que estavam procurando as outras religiões e muitos pensadores, teólogos, padres e bispos da mesma Igreja. Mas dom o surgimento dos “movimentos” que promoveram “novas experiências de vida cristã, tanto em nível pastoral […], espiritual […], quanto eclesial […]”[20]. Isso, por sua vez, gerou reflexões, expectativas em busca de reverter esse quadro de fechamento em si mesma. Mas por mais que fosse essa expectativa, ela contava com o anúncio de João XXIII no dia 25de janeiro de 1959. Com pouco menos de três meses decide sobre o concílio e o anuncia de uma forma pública, a ponto de rapidamente repercutir a notícia. E agora parecia que a Igreja do mundo todo se unia em uma alegria esperançosa; surge uma nova confiança no futuro:

“Os fermentos de renovação da Igreja católica e das outras comunidades cristãs se encontraram com as esperanças de tantas pessoas que, em todas as partes do globo, respiravam o ar sufocante da ‘guerra fria’; uns e outros viram o anúncio do papa João XXIII um ‘sinal’ – ou seja, não apenas um sintoma, mas também uma poderosa causa – de uma virada na situação mundial, que estimulava s se olhar com mais confiança o futuro, deixando-se para trás as divisões da guerra e as consequentes contraposições ideológicas”[21]

Ora, Alberigo ressalta os três principais aspectos do concílio, originários das reflexões da fase preparatória. São eles: “não se trataria de um concílio ‘de união’ entre as tradições cristãs divididas”; o seu caráter de “pastoralidade”; e por fim, o protagonismo de todos os bispos, que seria uma verdadeira colegialidade.[22] E desse ponto de reflexão é possível entender a análise de cada período do Vaticano II, e dos debates sobre os principais temas, como eclesiologia e liturgia. Ele apresenta cada detalhe que evidencie como as análises que muitos condenavam como modernistas, ou liberais, eram de acordo com o que pedira João XXIII desde o seu discurso de abertura do concílio. Por exemplo nos debates sobre a Igreja já na última fase pós concilias, Giuseppe fala de como eles ajudaram a enxergar o caráter ad extra da natureza da Igreja:

“[…] percebesse, talvez pela primeira vez, que seu trabalho não se limitava ao âmbito interno da Igreja católica, mas tinha repercussões muito mais amplas, levando-o a abrir-se para horizontes adequadamente vastos”[23]

Ou seja, toda aquela esperança do povo que foi surpreendida pelo anuncio de João XXIII, encontra nessas novas análises teológicos o caminho para um novo crescimento da Igreja, e todo posicionamento contra isso, seria como que barrar a própria ação de Deus neste evento tão importante para a Igreja católica naquela época, e principalmente agora. Como frisa o arcebispo Lercaro: “a exigência da pobreza da Igreja não como condição moral, mas como sinal da encarnação num mundo que rejeita a pobreza, […]”[24]. O que depois, Alberigo reitera com a carta da Ordo agendorum, que para ele, queria “explicitar de uma vez para sempre a sintonia entre o Papa e a grande maioria do concílio”[25].

Por isso, como defende Faggioli, não pode haver uma separação da letra do concílio com o seu espírito. Pois ele entrou na história e no tempo da Igreja em que era preciso mudar a ideia de fechamento em si mesma; de encontrar esperança no meio de tanto dor que vivia a humanidade; a Igreja precisava ajudar, acolher, dialogar. Com toda colocação do Papa João XIII, e depois com o seu desenvolver,

“o concílio vai adquirindo sentido como ‘sinal dos tempos’, segundo havia previsto M. D. Chenu. O acontecimento conciliar tal, - ainda antes de que a assembleia aprovara documentos – assume importância como ‘fonte de teologia’ (locus theologicus)”[26].

Por este motivo, Alberigo não concorda em dizer que acabaram todas as fases do concílio, ele ainda continua: “o concílio será também uma etapa no caminho”[27].

Conclusão

Quando se fala do Concílio Vaticano II como um evento que ficou no passado, existe um problema na compreensão acerca deste evento que ainda é tão vivo e importante para a vida da Igreja na sociedade atual. Todo esforço de inúmeros teólogos em desenvolver as pesquisar para a hermenêutica dos textos conciliares, evidenciaram que ainda há muito o que ser feito para que realmente a união dos textos com o espírito do concílio consiga movimentar a Igreja para o outro (ad extra), tal como era visto com os Apóstolos no início da Igreja. E tal como lá, nos primeiros séculos, houve conflitos entre os escolhidos por Cristo e semente com o tempo e a ação do Espírito Santo, o batismo foi sendo concedido a todos os povos. E após o concílio também fica esse clima, mas é preciso deixar que o verdadeiro espírito, que é o mesmo que orienta a Igreja desde o Pentecostes, faça fluir a Igreja tal como é a Vontade do Pai.

E para isso, é preciso enfrentar todos esses problemas que Faggioli coloca em sua obra, que vão desde questões linguísticas, até hermenêuticas. Pois, a partir do momento que o Concílio Vaticano II é concebido como descontinuidade, apenas alimenta os conflitos existentes destro da Igreja, atrapalhando aqueles que assistem de fora esperando o momento que a Igreja estenderá o braço para ajudar com aquilo que é necessário para a salvação de todos. E o contrário disso é verdadeiro, ou seja, uma compreensão do evento como acontecimento, a partir do qual, encontra-se uma continuidade da história da Igreja onde ela é verdadeiramente posicionada no tempo e na história atual, sem contradizer-se com tudo o que passou, leva a uma abordagem dos textos que traga como fruto o olhar para o mundo, mantendo essa relação Igreja e mundo, mais íntima e concreta. Movimento este que é feito somente a partir de uma abertura maior ao Espírito Santo, que edifica a vida de cada cristão e os impulsionam a serem luz ao mundo que tanto vive na escuridão.

Por fim, toda exposição dos contextos, conflitos, interpretações, etc., deve levar a um ardente desejo de se debruçar sobre este importante concílio ecumênico, estudando cada um dos textos, para que assim, consiga adentrar no pensamento atual da Igreja sobre como se relacionar consigo mesmo e com o mundo. E como bom cristão, desenvolver uma vida de oração mais profunda, para que os textos se tornem, no interior de cada um, uma vida apostólica, que entenda que na essência do cristianismo está o voltar-se para o outro, afinal o mandamento do Amor convida a voltar-se ao Pai em ao próximo, e também o envio dos Apóstolos no último capítulo do Evangelho de Mateus diz no vocativo “ide”, e continuar dando o destino: “a todos os povos”, para que assim, todos, no século XXI, tenham contato com essa Igreja mãe e misericordiosa, donde emana tanto Amor e tanta Graça.



[1] FAGGIOLI, Massimo; Vaticano II: a luta pelo sentido; apresentação de José Oscar Beozzzo; tradutor Jaime A. Clasen. – São Paulo: Paulinas 2013. – (Coleção revisitar o Concílio). Pag. 23

[2] Ibid. Pag. 22

[3] Ibid. Pag. 38

[4] Cf. Ibid. Pag. 52

[5] Ibid. Pag. 71

[6] Cf. Ibid. Pag. 93

[7] Ibid. Pag. 105.

[8] Ibid. Pag. 106

[9] Ibid. Pag. 113

[10] Ibid. Pag. 114

[11] Ibid. Pag. 119

[12] Ibid. Pag. 126

[13] Cf. Ibid. Pag. 161

[14] Ibid. Pag. 12

[15] Ibid. Pag. 172

[16] Ibid. Pag. 184

[17] Ibid. Pag. 191

[18] Ibid. Pag. 194

[19] Cf. ALBERIGO, Giuseppe. História dos Concílios Ecumênicos. Giuseppe Alberigo, org. São Paulo: Paulus, 1995. Pag. 393 e 394

[20] Ibid. Pag. 394

[21] Ibid. Pag. 395

[22] Cf. Ibid. Pag. 397

[23] Ibid. Pag. 405

[24] Idem.

[25] Ibid. Pag. 406

[26] ALBERIGO, Giuseppe. Historia Del Concilio Vaticano II – vol. III: El Concilio maduro El segundo período y la segunda intersesíon (septiembre 1963-sepitiembre 1964). Giuseppe Alberigo, org. Salamanca/España: Ediciones Síguemes, 2006. Pag. 437 Com o seguinte texto original: “el concilio va adquiriendo sentido como ‘señal de los tiempos’, según había pronosticado M. D. Chenu. El acontecimiento conciliar como tal – aun antes de que la asamblea aprobara documentos – assume importancia como ‘fuente de teología’ (locus theologicus)”.

[27] Ibid. Pag. 440. Com o seguinte texto original: “el concilio será tamién una etapa en el camino”.


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