A Ética de Cristo de José M. Castillo
O Livro A Ética de Cristo, tenta abordar
qual é a ética de Cristo, e a partir da ética de Cristo qual deve ser a ética
daquele que se diz cristão. O tema da ética é um tema constantemente presente
nos debates. O autor começa por falar de assuntos com relevância ética na
atualidade, como por exemplo, as pesquisas com células-tronco, o aborto, a
eutanásia, o sexo desregrado, a família, o casamento homossexual, o uso de preservativos,
a fecundação in vitro, a liberdade religiosa, o ensino religioso nas escolas, o
estado laico, etc.
José M. Castillo diz que nos últimos anos
tem crescido muito o número de estudiosos de Teologia Moral. Contudo, as
respostas morais que estão sendo dadas por esses estudiosos preocupam Castillo.
Castillo nota que, infelizmente na maioria das vezes, a religião é colocada
acima da vida humana. Para José M. Castillo a ética empregada pela Igreja se
associa muitas vezes aos ideais da política de direita. Todavia, acredito que
existe também uma ética dentro da Igreja, que muito se assemelha aos ideais da
esquerda política.
Castillo aborda uma questão central na
vida de um cristão; que é, partindo dos pressupostos e das narrativas
evangélicas, qual deve ser a postura de um cristão no mundo? Jesus acolhia
todos os pobres e excluídos que iam ao seu encontro. Porém, a partir do
encontro com Jesus, cada indivíduo era convidado a uma mudança radical no seu
modo de viver. Isso fica evidente em Jo 8,11, quando Jesus diz a mulher
adúltera: “vá e não peques mais”. O objetivo da religião é tornar os homens
melhores, portanto, quando as religiões transformam os homens em déspotas,
certamente não estão cumprindo perfeitamente o seu papel social.
O autor detecta uma crise atual, causada
por uma mudança de paradigma; até poucas décadas atrás, a religião e a família
ditavam as regras do mundo. Porém, hoje em dia, o que dita as regras são as
relações afetivas. Em outras palavras, antigamente as relações institucionais,
isto é, relação de pessoa e instituição, era o que ditava a regra; hoje, porém,
valem mais as relações pessoais. Segundo Castillo, o próprio Jesus já apresenta
constantes indícios de que não estava satisfeito com as instituições de sua
época. Exemplo disso, são as inúmeras curas que Jesus realizou em dias de
sábado e as várias vezes em que descumpriu alguma norma religiosa. Jesus deu
essa ênfase as relações pessoais, porque elas são baseadas em gratuidade e não
em normas (as relações institucionais são baseadas em normas).
Jesus é o homem perfeito, porque é a
imagem do Deus invisível (cf. Cl 1,15); em Jesus temos o Deus encarnado. A fé
cristã, é uma fé cristológica, de modo que, todas as demais ramificações da
teologia cristã, como a Mariologia, a Eclesiologia, a Trindade e outras
dependem intimamente da cristologia. Logo, o dever do cristão é perceber quais
são os imperativos por trás das narrativas evangélicas; e, a cada dia, o
cristão deve configurar-se mais e mais a Pessoa de Jesus Cristo.
Como dito anteriormente, Deus se encarnou
na Pessoa de Jesus Cristo, sendo assim, Deus quis nos humanizar. Porque o
pecado sempre nos desumaniza. A Igreja como continuadora da obra de Jesus
Cristo deve procurar sempre a humanização dos homens. Mas, infelizmente, ao
longo da história da humanidade, muitas vezes o cristianismo e outras religiões
foram motivo de brigas e guerras, e com isso, causaram a desumanização da
humanidade. Portanto, as religiões, mas também, as culturas nacionais que criam
desigualdades entre os seres humanos; elas não veem a dignidade do ser humano
como um direito fundamental a ser garantido.
E, se somos chamados a imitar Jesus
Cristo, algo importante da vida de Jesus é que o definiram como um homem que
passou pela Terra fazendo o bem (cf. At 10,38). Isso significa que, Jesus andou
pelo mundo realizando sinais e anunciando o Reino de Deus. Porém, o próprio
Jesus nunca fez propaganda de si mesmo. Segundo José M. Castillo, aqui está o
ponto de discernimento para saber se uma pessoa é boa ou não; o critério não é
o que a pessoa fala de si mesma, mas, o que os outros dizem dela. Dito de outra
forma, a resposta da bondade ou maldade de um indivíduo, está no semblante
daqueles que convivem com ele.
Aqui chegamos a um problema que já era
atual na época de Jesus, a contradição entre o falar e o fazer. Ainda
hoje, muitas pessoas vivem de teorias (e muito se aproximam dos gnósticos) e
não de práticas. Embora Castillo não cite o gnosticismo nesta obra, vale a pena
destacar os malefícios dessa heresia na Igreja. Papa Francisco diz o seguinte:
“Graças a Deus, ao longo da história da Igreja, ficou bem claro que aquilo que
mede a perfeição das pessoas é o seu grau de caridade, e não a quantidade de
dados e conhecimentos que possam acumular”[1].
Infelizmente, ainda hoje existem muitas pessoas que acreditam ser salvas só
pelo conhecimento, pois, conhecendo a Verdade revelada por Jesus Cristo, essas
pessoas não a colocam em prática. São arrogantes dentro da Igreja, e se
consideram melhores que os outros. Para Castillo, aqui está o motivo da falta
de credibilidade sofrida pela Igreja no mundo contemporâneo; falta profetas que
suscitem a fé das pessoas, porque muitos dos que estão dentro da Igreja
comportam-se como se fossem funcionários dela.
A religião tem o papel de nos humanizar,
como dito anteriormente, o pecado nos desumaniza, então o objetivo da Igreja é
nos humanizar novamente. Cristo introduziu uma nova regra: “Tudo aquilo,
portanto, que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles, pois esta é
a Lei e os profetas” (Mt 7,12). Ou seja, não se trata apenas de não fazer o mal, mas, de fazer o bem em qualquer circunstância.
Já havia citado algumas questões éticas que estão em pauta atualmente, agora
convém falar de algumas que nem sempre são destacadas nos debates atuais. Como
por exemplo, a produção de bombas atômicas, o serviço escravo, o tráfico de
pessoas para a prostituição ou para o comércio de órgãos; todas essas
realidades não são eticamente aceitáveis para um cristão. Portanto, fazer o bem,
inclui lutar contra tudo isso que nos desumaniza.
Neste ponto, Castillo introduz algo
chamado sensibilidade. A sensibilidade é o ato de se comprometer a ajudar as
vítimas deste mundo. Por exemplo, quando jovens doam seu tempo para trabalhar
voluntariamente em ONGs, para reconstruir casas, para alimentar moradores de
rua etc. eles estão sendo sensíveis ao sofrimento dos abandonados do mundo.
Esses jovens são o que podemos chamar de pessoas generosas, atingiram um grau
tão elevado de sua humanidade, que não podem ser indiferentes ao sofrimento
alheio.
A partir disso, devemos refletir sobre o
capitalismo e a geração de avarentos. Hoje em dia existem muitas pessoas que
são ricas e que só desejam aumentar seu capital. No entanto, essas mesmas
pessoas, se esquecem que existem indivíduos que passam fome todos os dias. O
problema do cristianismo e do dinheiro, não está no simples acúmulo de bens
materiais; está no fato de fazer do dinheiro um ídolo pessoal, onde o dinheiro
é colocado acima de Deus e dos outros. Por exemplo, um empresário que vise
apenas os lucros não é um bom cristão; mas, um funcionário que trabalha todos
os dias para alimentar a sua família é um bom cristão. Em outras palavras, o
Reino de Deus pregado por Jesus é o Reino da partilha; o importante não é ter
ou não ter, o importante é partilhar.
Concluo essa reflexão sobre o livro A
Ética de Cristo, citando uma frase do Apóstolo São Paulo: “Não importa mais ser
judeu ou grego, escravo ou livre, homem ou mulher; pois todos somos um só em
Cristo” (cf. Gl 3,28). Isso significa que, não deve haver mais distinção entre
rico e pobre, homem e mulher, mas que devemos reconhecer a dignidade humana que
está presente em cada um de nós. Foi isso que Jesus nos deixou como testemunho
evangélico, ao acolher os pobres, os pecadores, os marginalizados, as viúvas e
as mulheres de seu tempo.
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