Resenha: A Ética de Cristo
Na obra de José Maria Castillo, nos deparamos com as mudanças que ocorrem nos tempos atuais na vida privada, sobretudo, na vida emocional, que consiste em como concebemos a nós mesmos e como formamos laços e relações com os outros. A partir dessa primícia, o que está mudando são as crenças, os valores e a identidade, ou seja, para o autor, a pessoa está em constante mudança.
A
obra de Castilho, portanto, é para nós pertinente, pois, a luz da ética
desconcertante de Jesus conhecemos meios e soluções para esses assuntos já
destacados. Sendo assim, em uma sociedade onde a mudança está acelerada, temos
uma enorme dificuldade para agir segundo as normas de comportamento antigo, por
isso, com a ética de Cristo, vemos a necessidade de mudança e Castillo é feliz
quando afirma a necessidade de mexer nos valores que rege a vida das pessoas,
assim como Jesus pregou um evangelho propondo mudar a direção da sociedade.
"Não penseis que vim abolir a lei e os Profetas. Não vim abolir, mas
completar" (Mt 5,17).
A
mudança anunciada pelo Cristo, segundo Castillo, causou um desconcerto, assim
como muito provável essa obra cause, pois, é surpreendente a todos nós ao
afirmar que merecemos ter alegria e esperança, partindo da acolhida dos
excluídos e não da ameaça acusativa. Com isso, temos uma crítica a religião,
que muitas vezes não tem como finalidade a felicidade de todos, mas o
cumprimento da rigorosa lei.
Cristo
acreditava na vida, até porque, as pessoas estão substituindo a relação
institucional, que abrange as crenças e a família, por uma busca de sentido da
vida nas relações pessoais, buscando ter uma relação pura, com isso, Castillo
acerta ao afirmar que a religião e a família passam por um período de crise,
pois não responde mais as necessidades humanas atuais, que consiste em uma
estrutura comunitária. Deste modo, não possibilitando ao Ser Humano a
experiencia do prazer compartilhado, e o lograr da vida.
O autor acrescenta que, nos países dominados pelo
capitalismo, a Igreja Católica enfrentava sérias dificuldades para seu desenvolvimento,
pois, a ética protestante, especificamente a ideia calvinista de predestinação,
incentivou os primeiros empresários capitalistas a trabalhar sem trégua, que
promoveu o crescimento econômico e a acumulação de capital. Basta pensar no
seguinte: se todos os mortais levassem à letra o que certos textos evangélicos
dizem sobre a maldade do dinheiro e da riqueza, um dia poderíamos nos encontrar
com a cena desconcertante de um pai de família, trabalhador de uma fábrica de
carros (digamos), que chega em casa e diz para sua esposa e filhos: “Veja, o
mundo já é tão cristão, que estou sem emprego, porque ninguém compra carros e
todos nós temos que morar com tanta pobreza, que a única saída que temos é
passar fome e viver com muitas dificuldades e é até possível na mais cruel
miséria. A partir dessa premissa, Castillo questiona, se um cristão pode se
considerar um seguidor de Jesus se tiver uma conta corrente (com um “visto de
ouro” incluído), receber um bom salário e possuir alguns bens dentro do que, em
um determinado contexto social, pode ser considerado um cidadão que desfruta de
segurança financeira "razoável"? Foi dito, certamente com razão, que
"o dinheiro é um meio absoluto e, ao mesmo tempo, o ponto de união de
inúmeras ordens finais”. Por exemplo, no século 19, o papa Gregório XVI
concedeu numerosos títulos de nobreza a indivíduos e famílias ricos por uma
razão que, na opinião do pontífice, justifica tudo o mais: “aqueles que possuem
riqueza são geralmente uma ajuda e um ornamento para a sociedade cristã "
Isso
significa que a batalha decisiva pelo bem ou pela desgraça da humanidade, segundo
o autor, será travada, não no campo da política e nas decisões que vêm de cima,
mas no campo da ética, as escolhas feitas por aqueles que de baixo podem humanizar
a orientação dos gastos públicos e privados, do comércio e da distribuição da
riqueza mundial. E é a lógica de tantos homens e mulheres que, ao longo dos
séculos e por sua fé em Cristo, escolheram viver sem meios, sem recursos
humanos, em extrema pobreza, com a convicção de que isso, e não outro, é o
caminho que aqueles que pretendem levar a sério e com firmeza o projeto do
Reino de Deus, o projeto de Jesus, que é o projeto da bondade ilimitada, do
amor ilimitado, da humanização que ultrapassa todo o nosso desumanizações.
Muitos pensam que neste mundo há tanto sofrimento e tanta desgraça, sobretudo
por causa da ambição dos ricos, algo que, no momento histórico em que vivemos,
é evidente nas atrocidades que o sistema capitalista está causando, em sua
forma mais agressiva (o mercado neoliberal), nos países pobres do planeta e, em
geral, nos grupos marginais de nossa sociedade e, sobretudo, nos excluídos do
sistema.
É
evidente, na ótica de Castillo, que Jesus tinha a firme convicção de que o
maior perigo que existe para a vida neste mundo é o desejo de poder ou, mais
propriamente dito, a ambição de governar sobre os outros, o desejo de controlar
seus interesses, vidas e seus comportamentos, o esforço para forçá-los a se
submeter, a submissão tranquila e paciente ou, pelo menos, a renúncia daqueles
que veem que sua vida não tem outra saída senão resistir. Além disso, Ele não
quis agir como o superior que se impõe ao poder, mesmo que a relação de
superioridade e poder tente se apresentar e se justificar como algo que
corresponde a quem representa Deus ou quem detém poder religioso.
Não
obstante, Castillo está de acordo com a bem conhecida definição de Max Weber,
poder é “a probabilidade de um ator envolvido em um relacionamento social
conseguir o que deseja contra qualquer resistência que se oponha a ele,
qualquer que seja a base em aquele que é baseado nessa probabilidade”. Por sua
vez, autoridade é “a probabilidade de que uma ordem que possua um determinado
conteúdo específico obtenha a obediência de um determinado grupo de
pessoas". Nesse sentido, pode-se dizer com razão que, enquanto o poder
alcança a obediência, a autoridade age.
De
modo geral, Castillo nos traz em sua obra, que a reivindicação messiânica de
Jesus, como foi escrita no título da cruz, "rei dos judeus" (Mc
15:26), poderia ser tomada como um perigo real para o Estado. - habilidade de
dominação romana. Nem uma meia palavra contra os romanos, mas Ele viveu e
ensinou a viver com retidão moral e livre de assuntos que realmente interessam
e importam para as pessoas e os poderes deste mundo, tanto políticos quanto
religiosos, que se sentiam seriamente ameaçados. Castillo, conclui sua obra
relacionando a ética com uma vida mística. Porém, acima de tudo, é o místico que não
suporta a desigualdade, ou seja, precisamos de pessoas que se comprometam com o
outro, com a promoção e a defesa da vida humana assim como fez Jesus.
Por
fim, aquilo que é questionável tem que ser questionado, sendo assim, a ética
que precisamos deve ser construída na liberdade, para que gere reais mudanças,
a partir de críticas construtivas, para que a partir do desconcerto possamos
sair do torpor da indiferença, para que assim possamos desfrutar de futuro
melhor e muito diferente, com todos nós sendo sensíveis a e juntos buscando,
desejando e aproveitando de tudo que temos de prazer nessa terra.
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